Emergência climática e primeira infância: qual é a relação?

Nosso mundo enfrenta uma das maiores crises socioambientais já registradas – em grande medida em função das mudanças climáticas que já estão em curso no planeta. Resultado da atuação humana, suas consequências já podem ser sentidas em todos os cantos do planeta, mas sabemos que algumas pessoas são mais vulneráveis a suas consequências do que outras.

Quando ameaçadas diretamente por eventos climáticos extremos – como enchentes, secas, queimadas, poluição, tempestades ou furacões –, crianças de todo o mundo são as que mais facilmente morrem ou possuem suas condições de vida pioradas. Isso causa insegurança alimentar e de acesso à água potável, gerando efeitos como a desnutrição e diarreia, deslocamentos forçados e proliferação de doenças crônicas, o que impacta diretamente a garantia dos seus direitos à vida, à saúde, à educação e ao próprio desenvolvimento.

Não são somente as futuras gerações de crianças que estão ameaçadas, mas as 160 milhões de crianças que vivem hoje em áreas de secas, as 500 milhões vivendo em zonas de enchentes recorrentes, as 115 milhões em áreas de ciclones ou as mais de 90% das crianças que respiram ar tóxico todos os dias estão em perigo hoje. É urgente dar condições saudáveis de desenvolvimento para toda essa geração.

São as crianças pequenas as mais gravemente afetadas pela emergência climática

Famílias com crianças na primeira infância têm direitos garantidos por lei 

Por estarem em um período único do desenvolvimento humano, as crianças com até 6 anos de idade são mais vulneráveis socioeconomicamente e ainda não têm biologicamente os sistemas nervoso-cerebral e imunológico desenvolvidos por completo, estando mais sujeitas às doenças e violências advindas desses eventos. 

As crianças são as mais afetadas pela poluição ambiental, tanto por andarem pelas ruas respirando na altura de onde os carros emitem seus gases como por razões físicas. Os pulmões das crianças pequenas têm uma maior capacidade de absorção por grama de massa corporal, recebendo de duas a três vezes mais poluição do que um adulto. 

Dados da OMS estimam que 88% das doenças advindas das mudanças climáticas ocorrem em crianças de até 5 anos de idade. Após eventos climáticos extremos, as crianças são vitimizadas mais facilmente pelo trabalho infantil e exploração sexual. Além disso, são elas – muitas vezes já na barriga da mãe – que sofrem os maiores e mais permanentes danos da poluição atmosférica, que danificam seu desenvolvimento neurológico e cardiovascular, causando doenças crônicas para a vida inteira.

Desigualdade social e emergência climática

Famílias vulneráveis com crianças pequenas demandam atenção dos gestores e planejadores urbanos 

E como em outros temas, as desigualdades se acumulam e andam juntas. São as crianças negras, quilombolas, ribeirinhas e indígenas também as mais vulnerabilizadas desproporcionalmente pelas alterações climáticas, especialmente pela lógica de exclusão estrutural que permeia as escolhas de políticas públicas ou empresariais, um fenômeno também conhecido como racismo ambiental.

Não há como cuidar de todas as crianças se não enfrentarmos os desafios climáticos e socioambientais. Conceber ações efetivas no controle das emissões de CO2 e proteção das comunidades mais vulneráveis, em especial das crianças e suas famílias, ao longo de toda a cadeia de um negócio empresarial ou ação estatal é um imperativo para que as crianças na primeira infância sejam menos afetadas pela emergência climática e possam acessar políticas de cuidado e segurança social.

A importância de brincar com elementos da natureza na primeira infância

Brincar na natureza é fundamental para o desenvolvimento integral das crianças na primeira infância, pois são ambientes livres e instigantes, propícios ao aprendizado e ao desenvolvimento da linguagem. Esse contato com elementos da natureza apoia todos os marcos de uma infância saudável – imunidade, memória, capacidade de aprendizado, sociabilidade e disposição física. Pesquisa do Programa Criança e Natureza, do Instituto Alana e da Sociedade Brasileira de Pediatria, aponta ainda que esses benefícios são mútuos: assim como as crianças precisam da natureza, a natureza precisa delas.

É brincando ao ar livre que as crianças aprendem sobre o mundo, inclusive sobre a importância de cuidar e preservar seus ambientes. A natureza também estimula relações sociais e de vizinhança mais vibrantes, pois podem se tornar espaços de convivência, lazer e brincadeiras. Para as crianças, o brincar na natureza é importante para a criatividade em formação, especialmente para aquelas crianças que estão crescendo em grandes centros urbanos.

Os elementos da natureza ajudam as crianças a criarem um senso de autorregulação e gerenciamento de riscos, estimulam a prática de atividade física, combatendo a obesidade e outros problemas, assim como influencia positivamente a redução dos sintomas de condições comuns hoje em dia, como o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. São inúmeros os benefícios para a saúde geral dos bebês e crianças pequenas, com consequências diretas e indiretas para pais e cuidadores.

O que as cidades estão fazendo?

Conheça iniciativas apoiadas pela rede Urban95 Brasil na construção de cidades mais amigáveis para as crianças

Na natureza são inúmeros os estímulos ao aprendizado e desenvolvimento integral das crianças na primeira infância, o que pode ser um desafio para aquelas crianças que vivem em cidades. Mas existem intervenções e metodologias que podem trazer mais verde e espaços de convivência e brincar livre. Conheça algumas ações das cidades brasileiras:

Niterói

Caminhos mais verdes para pedestres e ciclistas

Em parceria com a Rede Urban95, a Prefeitura de Niterói está requalificando um trecho para pedestres e ciclistas com foco na circulação de crianças de 0 a 6 anos. O Rotas Caminháveis é um projeto intersecretarial que pensa na criação de trajetos lúdicos e interativos para proporcionar um caminhar agradável e seguro para as crianças e famílias. Ao longo de toda a rota-piloto, parte do espaço destinado para os carros foi transformado em espaço para os ciclistas e pedestres.

Uma ciclofaixa foi instalada com a pintura de “vagas verdes”, aumentando a largura da calçada e melhorando a qualidade ambiental do percurso e a segurança dos pedestres. Floreiras foram instaladas no trajeto, criando uma zona de proteção. Dezenas de vagas de carros foram retiradas, impactando na qualidade do ar e gerando menos poluição visual e experiências mais promissoras para o desenvolvimento das crianças pequenas.

Fortaleza

Microparques naturalizados mudam a cara da cidade

Fortaleza foi a primeira das cidades a criar um projeto-piloto de parques naturalizados dentro do programa Fortaleza Mais Verde. A capital cearense já conta com dois parques naturalizados, espaços urbanos verdes que oferecem mais uma opção de natureza para bebês, crianças e famílias. A ideia é utilizar elementos da natureza, como galhos e árvores, além da própria geografia local, para desenvolver espaços infantis.

Além de um espaço de lazer e descanso, “bolhas verdes” como essa ajudam a amenizar as temperaturas nas cidades, incentivam a biodiversidade, a ocupação do ambiente público e o estreitamento das relações comunitárias, mostrando como iniciativas de escala local podem beneficiar a todos. Áreas degradadas foram recuperadas para o uso de crianças e famílias, com benefícios sociais e ambientais, e transformadas em “microparques” urbanos.

Caruaru

Conectando rotas infantis com zonas verdes e saudáveis

A cidade está investindo na instalação de parques naturalizados ao longo de rotas de pedestres com o objetivo de conectar áreas escolares e espaços públicos, fazendo da circulação na cidade uma oportunidade de colocar as crianças em contato com a natureza. Caminhos mais verdes, lúdicos e seguros e que incentivam o brincar, a prática esportiva e o lazer.

As áreas ao redor dos dois parques já instalados também sofreram intervenções urbanísticas para que se tornem mais seguras para as crianças pequenas e suas famílias. Elementos de xilogravura foram inclusos para dar mais identidade e aproximar a comunidade dos espaços.

A importância das brincadeiras na primeira infância

Brincar é uma atividade universal e tem função crucial no desenvolvimento e capacidade de aprendizado de uma criança. A organização cultural de uma sociedade pode influenciar os tipos de brincadeiras que as crianças experimentam, onde e com quem essas atividades acontecem. Sob o ponto de vista das crianças, a importância do brincar na primeira infância se relaciona com sua liberdade de experimentar o mundo e a possibilidade de escolher seus amigos.

As brincadeiras na primeira infância trazem benefícios sociais, emocionais e cognitivos. Os bebês aprendem sobre eles próprios e sobre o mundo com interações lúdicas e brincadeiras simples com seus pais e cuidadores. Como os excelentes observadores que são, beneficiam-se de brincadeiras de imitação, que tendem a criar interesse por parte dos pequenos. As crianças pequenas têm nas brincadeiras elementos de interação que são impulsos importantes para seu desenvolvimento físico e social ao inventar brincadeiras, dividir objetos e se relacionar por meio de jogos e brincadeiras.

Do faz de conta à ciência

Os bebês e crianças pequenas são os mais criativos exploradores 

As brincadeiras de faz de conta, por exemplo, dão a base para o desenvolvimento de habilidades de empatia, a capacidade de colocar-se no lugar do outro, de planejar em grupo e de autorregulação. As brincadeiras na primeira infância se relacionam com movimento e criatividade e, especialmente quando sob a supervisão de um adulto, introduzem as crianças a novas linguagens e experiências intelectuais.

Pesquisas já demonstraram que a liberdade de explorar, descobrir e ser inventivo é a base intelectual que vai permitir sua escolarização, seu interesse pela ciência e a descoberta do mundo ao seu redor. Durante os primeiros anos de vida, a exploração do mundo se dá de forma prática, com as mãos na terra e a descoberta de sua vizinhança, seu bairro e sua cidade. Para tal, é importante que as cidades invistam em espaços adequados para o brincar na primeira infância e que a comunidade se aproprie dos espaços lúdicos coletivos.

Cidades que proporcionam oportunidades de brincar são melhores para as crianças pequenas e seus cuidadores

As possibilidades de exploração interativa e brincadeiras ajudam a moldar a experiência no território 

Apesar de sua importância para a saúde, bem-estar e desenvolvimento cognitivo, as brincadeiras na primeira infância raramente são levadas a sério pelos gestores, planejadores urbanos, governos e tomadores de decisão. Seja por omissão ou desconhecimento sobre a importância do brincar na primeira infância livre e interativo. Mesmo que as crianças pequenas não percam sequer uma oportunidade de explorar o seu entorno em busca de opções de brincadeiras, é importante que os espaços disponíveis para elas sejam limpos, seguros, acessíveis e cercados de oportunidades interativas.

Para que as crianças possam correr, brincar, explorar, imaginar e se sujar, os pais e cuidadores devem sentir que o espaço da cidade é adequado para sua idade e receptivo com suas necessidades específicas. E para que a brincadeira das crianças já em idade escolar não se circunscreva ao aprendizado curricular, é fundamental que as cidades apostem em espaços públicos verdes, onde as crianças possam ter contato com a natureza e elementos naturais, compartilhando experiências criadas com outras crianças da vizinhança. A cidade pode convidar ao brincar na primeira infância com benefícios para todos.

Conheça algumas Atividades para Primeira Infância

Transformar comportamentos para ativar a cidade

O que faz uma nova praça ser utilizada? Ou uma campanha de vacinação ser adotada pela comunidade? Quais estratégias podem contribuir para que cuidadores utilizem serviços desenhados para eles? Antes de mais nada, é preciso transformar comportamentos.

Esse foi o foco do webinar Comunicação e mudança de comportamento, da Urban95, realizado por Sam Sternin, consultor da Fundação Bernard van Leer. O especialista tem mais de 15 anos de experiência trabalhando com mudança de comportamento e gestão adaptativa, em parceria com agências da ONU, ONGs, fundações privadas e governos locais e nacionais.

Realizado no dia 3 de dezembro de forma on-line, o evento contou com a presença de representantes das 11 cidades que entraram na Rede Urban95 em 2021. Esses municípios estão sendo acompanhados pelo CECIP Centro de Criação de Imagem Popular, responsável pela organização do webinar.

O encontro foi iniciado com a fala da representante da Fundação Bernard van Leer, Claudia Vidigal, celebrando os primeiros meses de trabalho das 11 cidades e as conquistas já realizadas nesse tempo. “Essa é uma rede que vai se construindo nas relações entre as cidades, mas sobretudo na relação entre as pessoas”, destacou.

A mudança de comportamento e a Urban95

Sam Sternin introduziu a temática contextualizando que a ideia da iniciativa Urban95 é criar uma cidade que contribua para transformar comportamentos, e não apenas o ambiente físico. Dessa forma, é possível construir uma cidade que funciona para todos e todas.

Isso não é fácil – afinal, quantos de nós sabemos que fazer algo é errado e mesmo assim fazemos? Por isso, para haver uma mudança efetiva de comportamento não basta apenas promover a informação.

“Nossa missão não é apenas informar os cuidadores sobre os bons comportamentos, precisamos ajudá-los a superar a lacuna entre as boas intenções e as boas práticas”, explicou. É preciso construir ferramentas efetivas de comunicação e engajamento, essenciais para informar e impulsionar novas ações, hábitos e garantir que espaços, programas e serviços sejam utilizados pela comunidade.

Para superar as barreiras, é necessário identificar os motivadores comportamentais que bloqueiam a mudança e desenvolver soluções com base nos resultados. “Diferentes tipos de barreira requerem diferentes tipos de suporte, de apoio, de ajuda e diferentes ações para permitir que a pessoa as supere”, explicou. O evento contou com dinâmicas de identificação de barreiras, criação de soluções para e estudos de casos concretos.

Quer saber mais? Confira o vídeo completo do Webinar Comunicação e mudança de comportamento, da Urban95:

Caruaru é a primeira cidade da Rede Urban95 a receber um alerta de risco no projeto alertas primeira infância

Caruaru recebeu nesta semana no dia 8/12 a visita de Filipe Rocha, do Instituto de Tecnologias Geo-Sociais (ITGS), para validar os resultados do primeiro alerta de risco implantado pelo projeto Alertas Primeira Infância no município. Além da validação do alerta “criança fora da escola”, foram discutidas possíveis ações de resposta e verificados outros importantes dados para a primeira infância no município.

Resultados do alerta serão utilizado no projeto municipal Criança na Creche

O trabalho intersetorial envolveu as secretarias de planejamento (SEPLAG), saúde (SMS), educação (SEDUC) e assistência social (SDSDH), além de visitadores do programa Criança Feliz. A partir da integração de dados do E-SUS, Cadastro Único, Bolsa Família, matrículas escolares e lista de espera da educação foi possível identificar pela plataforma quais crianças do município não estão matriculadas na rede municipal de ensino e que também não constam nas listas de espera por vagas.

Partindo de um caso identificado pelo alerta, foram discutidos os atuais protocolos de busca ativa realizada tanto pela educação quanto pelo programa Criança Feliz, e também o papel da plataforma no monitoramento do caso, concentrando o registro das informações geradas no acompanhamento das equipes.

Os resultados do alerta serão utilizados no programa municipal Criança na Creche, que visa colocar crianças em vulnerabilidade nas escolas. Desta forma, os resultados do projeto colaboram na otimização das buscas ativas da educação e da assistência social e auxiliam Caruaru no desafio de levar crianças para a educação infantil nas unidades de ensino que já estão construídas.

Servidoras e ITGS discutem monitoramento do alerta

SOBRE O PROJETO ALERTAS PRIMEIRA INFÂNCIA

Fruto da parceria entre o Instituto de Tecnologias Geo-Sociais (ITGS) e a Fundação Bernard van Leer, o Projeto Alertas Primeira Infância tem como objetivo fortalecer a cultura de dados e identificar crianças e gestantes em situação de risco nos municípios da Rede Urban95. Por meio de uma plataforma de integração de dados que incorpora a perspectiva dos serviços públicos municipais, o projeto visa apoiar os municípios no desenvolvimento de ações de cunho tecnológico que melhorem e monitorem a qualidade de vida na primeira infância.

Cidades da Rede Urban95 trocam experiências no último webinar de 2021

O webinar de encerramento dos trabalhos da Rede Urban95 Brasil em 2021 apresentou um panorama da experiência das cidades brasileiras que estão pensando e intervindo em seus espaços públicos a partir das necessidades dos bebês, crianças pequenas e cuidadores. O evento online ocorreu na última sexta-feira (03.12) e reuniu 10 cidades da Rede para um encontro de trocas e confraternização.

Ao final de um ano de trabalho, os municípios começam a colher os frutos de todos os esforços realizados pela primeira infância, como intervenções instaladas pelas cidades, campanhas de mudança de comportamento e passos certeiros para a confecção de planos e leis municipais que garantam os direitos das crianças.

A representante da Fundação Bernard van Leer no Brasil, Claudia Vidigal destacou os caminhos trilhados na construção dos planos locais pela primeira infância, que deverão ser o foco da Rede no próximo ano. “Em um momento em que a população brasileira está especialmente vulnerável, é importante voltar aos básicos e olhar para as demandas de assistência social, saúde e educação. Tenho certeza que 2022 será um ano de muitas realizações para a Rede Urban95 Brasil.

 Fortaleza-CE

Mariana Gomes, gerente de projetos no Laboratório de Inovação da Prefeitura de Fortaleza, apresentou ao grupo o histórico de políticas para a primeira infância no município, com aprovação de um completo Plano Municipal pela Primeira Infância, ainda em 2014. Com uma proposta de integração de programas e políticas, o documento vem se desdobrando em diversas ações nos últimos anos.

Com a entrada na Rede Urban95 Brasil, Fortaleza conquistou dois micro parques urbanos para a cidade, espaços com elementos de parques naturalizados e que contaram com participação ativa da comunidade para sua elaboração. Implantados em áreas socialmente vulneráveis da cidade, se tornaram respiros verdes para as crianças e famílias.

Crato-CE

Na cidade cearense de Crato o destaque foi para as intervenções lúdicas, que aproveitaram as escadarias da cidade para transmitir a ideia de direitos das crianças para toda a comunidade. Desenhos e mensagens estampando conceitos de forma colorida e lúdica. O investimento semente permitiu a intervenção ao redor de um centro educacional, tornando o trajeto preferencial das crianças mais interessante e atrativo.

Além dos avanços na elaboração do plano municipal temático, a cidade está recebendo uma consultoria da parceria Allma Hub Criativo para desenvolver um projeto voltado à parentalidade e educação não violenta. Pensando ambientes mais acolhedores e responsivos para o desenvolvimento dos futuros cidadãos.

Brasileia-AC

Membro do Comitê Municipal Intersetorial dos Programas Primeira Infância Acreana e Criança Feliz, no município de Brasileia, Fabrício Rocha contou sobre a experiência de revitalização da Praça Leonardo Barbosa, com uma proposta voltada ao lazer de crianças. Já na praça Hugo Poli foram feitas pinturas interativas e um cantinho da leitura para promover o hábito de ler livros entre a crianças e famílias

O coreto da cidade também foi revitalizado para esse público, e agora conta com um espaço de leitura e contação de histórias. Recentemente a cidade recebeu uma visita de equipes técnicas do projeto Urban95 e para 2022 novas ações devem inspirar Brasiléia.

Aracaju-SE

Cecília Leite, da Prefeitura de Aracaju, compartilhou a experiência da cidade pela implementação do Plano Municipal pela Primeira Infância. Com o estabelecimento de um grupo intersetorial a cidade conseguiu fazer um amplo levantamento de indicadores e um robusto diagnóstico sobre bebês, crianças e cuidadores.

A cidade segue com uma agenda densa para avançar em 2022! Com a metodologia do Pé-de-Infância a cidade está desenvolvendo ações em conjunto com a comunidade, e novas intervenções foram sugeridas pela comunidade.

Ilhéus-BA

A cidade baiana está finalizando a implementação de intervenções do projeto Pé-de Infância dentro de uma unidade do CRAS, uma proposta apresentada pela representante da Prefeitura Municipal de Ilhéus, Joelia Sampaio.

A cidade também está em diálogo com um centro universitário local para pensar outras intervenções no território. Essa conexão com a comunidade potencializa o trabalho da cidade e contribui para a implementação de políticas cada vez melhores.

Pelotas-RS

Carmem Roig, da Prefeitura de Pelotas, trouxe uma retrospectiva das políticas já desenvolvidas na cidade com foco em crianças pequenas e cuidadores, como

programas de atendimento à primeira infância voltados à educação psico-social. A cidade investe na promoção dos cuidados interativos e uma cultura de cuidado e segurança para a primeira infância, incluindo as gestantes.

A cidade comemora ainda a criação do Comitê Intersetorial em 2021, passo importante para reunir programas e concentrar sinergias locais. A novidade para o próximo ano é o projeto de qualificação de vias de acesso, calçadas e muros próximos à centros de saúde e de educação, áreas com grande fluxo de crianças.

Niterói-RJ

Kallena Lima, da Prefeitura de Niterói falou sobre a estratégia da cidade para o ano que se encerra, muito voltada à sensibilização das secretarias, formação de grupos de trabalho e novas parcerias. O próprio prefeito fez a assinatura de carta compromisso pela primeira infância, reforçando o compromisso coletivo da gestão com a pauta.

Merecem destaque também programas como o Pedal das Crianças e o programa Infância mais Verde, que traz um compilado de programas ligados à sustentabilidade. A proposta é fazer o monitoramento da qualidade do ar à altura de uma criança e ao longo de rotas com grande circulação delas. Uma tentativa de olhar sob a perspectiva dos 95cm, literalmente.

Campinas-SP

Thiago Ferrari, apresentou os avanços do Programa Primeira Infância Campineira, um plano completo para a construção de uma cidade mais amigável para crianças no interior de São Paulo. Ele reforçou a importância da sensibilização dos secretários municipais e técnicos que atuam em áreas de interesse da primeira infância na cidade.

A cidade espera que a base concreta que vem sendo desenvolvida vá se transformar em ações concretas em 2022, com foco em mudança de comportamentos e a adoção da pauta da primeira infância.

Jundiaí-SP

Marcelo Peroni destacou o engajamento pessoal do prefeito de Jundiaí na agenda da primeira infância, mas também a importância da intersetorialidade e do engajamento da equipe técnica. A cidade comemora um completo Observatório da Primeira Infância, hoje com 117 indicadores com enfoque nesse público.

A cidade conta ainda com o Comitê das Crianças, instituído desde 2018, onde participam ativamente no processo de construção de políticas e priorização de demandas. A cidade agora está investindo em projetos de promoção do contato com a natureza, com plantio de árvores e hortas urbanas.

Caruaru-PE

Julianne Pepeu contou para a Rede Urban95 sobre o realinhamento do plano municipal que já existia na cidade, mas que nunca havia sido implementado. Com apoio do Ifan, a cidade conseguiu realizar a reescrita do Plano, de forma que refletisse mais a realidade local.

A cidade comemora outra grande realização: a implementação de dois parques naturalizados que promovem o brincar ao ar livre, o desemparedamento das crianças e o uso dos espaços públicos. A comunidade está recebendo instruções sobre o uso e cuidado com o espaço e campanhas de conscientização sobre a importância do contato com os ambientes naturais está apoiando a população nessa aproximação.

Em 2022, as 24 cidades que integram a Urban95 Brasil seguirão em rede para ampliar a agenda da primeira infância no Brasil. São elas: Aracaju (SE), Boa Vista (RR), Brasiléia (AC), Campinas (SP), Caruaru (PE), Crato (CE), Fortaleza (CE), Ilhéus (BA), Jundiaí (SP), Niterói (RJ), Pelotas (RS), Recife (PE), São Paulo (SP), Alcinópolis (MS), Alfenas (MG), Benevides (PA), Canoas (RS), Cascavel (PR), Mogi das Cruzes (SP), Paragominas (PA), São José dos Campos (SP), Sobral (CE), Teresina (PI) e Uruçuca (BA).

 

É hora de Natureza: pesquisa aponta que 87% das famílias notaram que a natureza fez muita falta para as crianças

Mil mães, pais e responsáveis por crianças brasileiras de 0 a 12 anos, foram entrevistados para a pesquisa “O papel da natureza para a saúde das crianças no pós-pandemia”, sobre os impactos do afastamento repentino que sofremos da natureza. O levantamento propõe um olhar sobre as crianças que vivem em centros urbanos e a urgência de retornarmos ao verde.

Como parte da Campanha É hora de Natureza, o estudo inédito foi idealizado pelo programa Criança e Natureza, do Instituto Alana, em parceria com a Fundação Bernard Van Leer e o WWF-Brasil. A execução foi da Rede Conhecimento Social, com uma abordagem quantitativa, via questionário, e outra qualitativa, com 10 famílias.

Para os cuidadores os impactos positivos do contato com a natureza são claros, com 75% das famílias afirmando que querem aumentar o contato com a natureza no pós-pandemia, levando as crianças mais vezes para praças e parques, já que perceberam que isso as ajudou a atravessar a pandemia com mais saúde e bem-estar.

Se antes da pandemia, cerca de 70% das crianças tinham a oportunidade de brincar ao ar livre até uma vez por semana, esse número cai para 45%, com efeitos diretos sobre os pequenos. 81% das famílias percebeu efeitos positivos do contato com a natureza para que as crianças passassem pela pandemia com mais saúde e bem-estar.

A Campanha É hora de Natureza também publicou um Manifesto pela pelo contato das crianças com a natureza, áreas de lazer verdes e que promovam o desenvolvimento integral dos pequenos, a saúde, o bem-estar e a vida comunitária.

Veja mais detalhes da pesquisa e acesse aos dados completos.

É Hora de Natureza

Acreditamos que É hora de Natureza porque:

É na Natureza – um remédio sem efeitos colaterais – que poderemos contribuir para a recuperação da saúde e bem estar das crianças e adolescentes que já estavam confinados, sobretudo nas grandes cidades.

É na Natureza e a céu aberto que o brincar livre, principal forma de expressão das crianças, pode acontecer sem pressões consumistas, fomentando a criatividade, a iniciativa, a autoconfiança, a capacidade de escolha e de decisão.

É na Natureza que podemos amenizar as consequências do sedentarismo e da obesidade infantil, incluindo seus desdobramentos, como baixa motricidade – falta de equilíbrio, agilidade e habilidade física – e retrocessos nas expressões oral e corporal.

É na Natureza que temos grandes chances de diminuir o estresse, prevenir problemas como depressão e ansiedade, melhorar a qualidade do sono e da visão, além do medo do contato social, e organizar a retomada da socialização e da valorização da vida.

É na Natureza que o desemparedamento da infância nas escolas se dá em sua maior potência, por meio de aulas, atividades e brincadeiras ao ar livre, nos espaços abertos das escolas ou em territórios educativos como praças, parques e ruas.

É na Natureza que fortalecemos e valorizamos as áreas verdes públicas como lugares de convívio, saúde e bem estar e fomentamos o acesso a elas e a todos os seus benefícios para toda a população.

É na Natureza que a participação social de crianças, adolescentes e jovens ganha força na definição do planejamento urbano de espaços de circulação e permanência como modo de cidadania ativa.

É na Natureza que podemos contrabalançar os impactos da exposição à tecnologia na vida de crianças e adolescentes, tão amplificados durante a pandemia.

É na Natureza que pulsa o alerta de que precisamos incluir o valor real dos serviços ecossistêmicos nos planos de reestruturação econômica pós-pandemia, estabelecer padrões de produção e consumo que respeitem os recursos finitos do planeta e respondam à emergência climática.

É na Natureza que a criança desenvolve afinidade a ela, aprecia e zela pelo mundo à sua volta porque o respeita e o reconhece como seu ambiente de pertencimento.

 

Campanha #LivreParaBrincarLaFora torna a poluição do ar visível com uma grande bolha cinza

A poluição do ar é a segunda maior ameaça à saúde pública após a Covid-19. Trata-se de um problema global que afeta em especial as crianças: 93% delas respiram ar com níveis de poluição acima do recomendado.

Em comparação aos adultos, crianças inalam até 50% a mais de ar considerando seu tamanho e peso, o que aumenta significativamente a dose de poluição respirada. A ingestão desses gases poluentes, todos os dias, também causa danos ao desenvolvimento físico e cognitivo ao longo da vida.

Pequeno homem-aranha em contato com a bolha cinza da campanha #LivreParaBrincarLaFora em Fortaleza (Crédito: Felipe Cardoso/Escola de Notícias)

Diante deste cenário, a campanha global #LivreParaBrincarLaFora (originalmente Free To Play Outside) pretende tornar visível a poluição do ar e os impactos negativos na saúde das crianças e do planeta. A iniciativa foi idealizada pelo programa Criança e Natureza, do Instituto Alana, em parceria com o Parents For Future, movimento de famílias que apoiam os jovens nas suas reivindicações para conter a crise climática, e apoiada pela Fundação Bernard van Leer.

“Não existe vacina para evitar os problemas decorrentes da poluição do ar, como parto prematuro, baixo peso ao nascer, asma, complicações pulmonares e problemas no desenvolvimento físico e cognitivo. A solução está em pararmos o problema na fonte, ou seja, nos escapamentos e nas chaminés entre outras queimas, de onde saem a maioria desses poluentes”, alerta JP Amaral, coordenador do programa Criança e Natureza do Instituto Alana.

A jornada da grande bolha cinza começou em São Paulo e desde então já viajou para três outras cidades parceiras da Urban95 em todo o Brasil.

Boa Vista (RR)

Em Boa Vista, a visita da bolha cinza foi combinada com uma atividade de plantio de árvores para crianças. A atividade foi apoiada pelo Família que Acolhe, programa que atende crianças e famílias desde o nascimento até os seis anos de idade, por meio do acesso integrado aos serviços de saúde, educação e desenvolvimento social. As crianças que participaram do plantio terão uma placa com seu nome registrado na árvore.

Fortaleza (CE)

Em Fortaleza, a visita da bolha marcou o lançamento de um microparque e também o anúncio que a cidade vai desenvolver um Marco Regulatório para o Monitoramento da Qualidade do Ar na cidade com apoio da Parceria por Cidades Saudáveis, da Bloomberg Philanthropies. A iniciativa, que tem colaboração da ONU e da Vital Strategies, contempla um apoio de US$ 75 mil para o planejamento e execução do projeto.

Niterói (RJ)

Em Niterói, a bolha fez parte de um evento na Praia de Icaraí para conscientizar sobre como o trânsito contribui para a poluição do ar da cidade e promover alternativas como o ciclismo. O evento gerou grande interesse, com muitas crianças e famílias interagindo com a bolha e tirando fotos.

Assista ao vídeo em que JP Amaral explica sobre a campanha:

Livros na primeira infância

Estudos já comprovaram que a leitura desde a gestação pode trazer inúmeros benefícios para o desenvolvimento dos bebês, que, mesmo não compreendendo os termos, aprendem a captar a voz dos pais e cuidadores, estimulando o aprendizado e a formação de vínculos. Assim como o cantar, ao contar histórias para os bebês e crianças pequenas, estamos apresentando novas possibilidades de linguagem, interação e criatividade. A leitura na infância também se relaciona com a continuidade desse hábito na vida adulta, com benefícios diversos para o desenvolvimento social dos indivíduos. Continue reading

A importância do desenvolvimento na primeira infância

O investimento e o cuidado com o desenvolvimento da primeira infância, desde a gestação e, especialmente, nos três primeiros anos de vida, está diretamente relacionado à construção de uma sociedade mais próspera. 1 milhão de sinapses se formam por segundo no cérebro de uma criança pequena. Isso significa que os estímulos recebidos durante essa fase da vida são absorvidos e contribuem para o desenvolvimento físico, intelectual e psicossocial da criança, o que pode colaborar para um adulto com capacidade de conduzir com autonomia a sua vida. Continue reading

Brasileia (AC) dá primeiros para Construção do Plano Municipal pela Primeira Infância

A Prefeitura de Brasileia (AC), concluiu a oficina “Construção do Plano Municipal pela Primeira Infância”, uma parceria da cidade com o Projeto Planos Primeira Infância, uma parceria do Instituto da Infância e Rede Urban95.

A atividade reuniu técnicos das secretarias municipais de Assistência Social, Saúde, Educação, Planejamento, Cultura, Conselho Tutelar, Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente, todos motivados pelo desejo de beneficiar as crianças brasileenses de idades entre 0 e 6 anos.

Uma das missões do grupo de trabalho foi revisar os eixos estratégicos constantes no texto que o município concebeu em 2018 como proposta de PMPI.  “Para que a gente possa sonhar com um futuro melhor, nós temos que parar, sentar, planejar, elaborar os nossos projetos e executar”, afirmou prefeita Fernanda Hassem.

Próximos passos

As próximas ações incluem sistematizar o conteúdo produzido na oficina para validação do Comitê Municipal Intersetorial.

Em seguida, os textos serão submetidos à aprovação dos gestores de cada pasta da administração. No início de 2022, haverá uma escuta de crianças, passo fundamental para garantir que o Plano atenda às expectativas e anseios do público que se propõe a beneficiar.

Após a prefeita validar as ações finais propostas pelo Comitê, será iniciado o trabalho de redação do texto final do Plano, seguido da articulação do Comitê junto ao Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente e à Câmara de Vereadores para aprová-lo. Por fim, a meta é chegar à homologação do Plano Municipal pela Primeira Infância de Brasileia em forma de lei em 2022.

Prefeitura de Brasiléia recebe equipe Urban95 para planejar novas ações voltadas à primeira infância na cidade

A Urban95 Brasil marcou presença na cidade de Brasiléia durante esta semana. Entre os dias 22 e 24/11, ministraram oficinas para a equipe da Prefeitura a Assessora de Projetos do Instituto Cidades Sustentáveis, Carol da Terza, a gerente do Projeto Planos Primeira Infância, do Instituto da Infância (IFAN), Neilza Buarque e o Coordenador do Instituto, Fellipe Dias. As Oficinas pela Primeira Infância aconteceram no Centro de Convivência do Idoso de Brasiléia e foram encerradas com a entrega de certificados para todos.

Diversas secretarias estiveram nos encontros, além de participantes do comitê intersetorial da primeira infância, estabelecido em 2020 na cidade. A prefeita Fernanda Hassem acompanhou todas as atividades, assim como membros do  Conselho Tutelar e do Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente. O encontro serviu como oportunidade de troca de experiências e boas práticas entre todos os agentes locais engajados na pauta da primeira infância.

Servidores e equipes participaram de encontros de formação e planejamento da cidade para a primeira infância

A prefeita reforçou a importância do evento para o planejamento da cidade em ações pela primeira infância. “Nossa equipe está muito determinada a fazer com que Brasileia seja uma cidade que protege e cuida de suas crianças. Agradecemos todo  carinho da Rede com a nossa cidade”, afirmou.

Ao final das atividades, a equipe técnica da Rede Urban95 se dedicou ao mapeamento de espaços e equipamentos públicos com potencial de receberem intervenções com o olhar dos bebês, crianças pequenas e cuidadores. Estes espaços são postos de saúde, escolas, creches, instituições de assistência e outros potenciais do espaço urbano, como praças e parques. Com essas informações em mão a cidade ganha uma ferramenta para olhar seu território de forma mais integrada e pensar novas intervenções, que pensem nas prioridades de bebês, crianças pequenas e cuidadores.

A semana se encerrou com encontros individuais com o secretariado da cidade e uma reunião de alinhamento com a Prefeita, onde foram apresentados os resultados do trabalho da equipe técnica e sugestões para a atualização do Plano Municipal pela Primeira Infância (PMPI) de Brasiléia. O Plano contará com a participação de vereadores, equipes da prefeituras e sociedade civil.

Sobre o Projeto Planos Primeira Infância

Parceria do Instituto da Infância com a Fundação Bernard van Leer e Instituto Cidades Sustentáveis, o Projeto Planos Primeira Infância tem como objetivo qualificar a governança municipal da Primeira Infância em dez municípios que fazem parte da Rede Urban95. Desenvolver Planos Municipais pela Primeira Infância (PMPI) é uma das estratégias para garantir e incluir na agenda da gestão pública tais contribuições à população desta faixa etária da infância.

Comunidade de São José, no Caramujo em Niterói (RJ) recebe pinturas interativas em espaços públicos

Em março de 2020, a cidade de Niterói (RJ) foi escolhida para compor a Rede Urban95 e participou da prototipação da campanha “Pé de Infância”, contribuindo com o processo de escutas que subsidiaram o desenvolvimento da proposta. Recentemente, com o acúmulo deste conhecimento, a cidade iniciou um processo de pinturas na Comunidade de São José, no Caramujo, região norte, em espaços do bairro que estavam inativos.

“Quando visitamos o local, vimos crianças ociosas sentadas nas proximidades. Comecei então a pensar em algo para colocar ali”, explica Giselle Brand, coordenadora geral do PRODUIS.(Programa de Desenvolvimento Urbano e Inclusão Social), um programa cujos principais objetivos são a melhoria das condições de urbanização e saneamento ambiental de bairros de baixa renda.

O processo de aplicação do Pé de infância se deu em algumas etapas. Depois de escolher as peças na caixa de ferramentas, a equipe do PRODIUS digitalizou as imagens para vetorizar e escalonar as peças nas aplicações onde seriam feitos os projetos.

“Medimos o local e escalonamos as peças para aplicação nos arquivos digitais em escala real. Foram feitas impressões para que os pintores utilizassem como moldes, garantindo a fidelidade dos projetos. Marcados os esboços, os pintores misturam as tintas especiais e foram produzindo os tons próximos às peças da caixa de ferramenta”, relata Giselle.

Para as letras das escadas foram feitos moldes em cartolina aplicadas como uma pintura stencil. “Nas letras e detalhes mais artísticos contratamos um pintor com formação mais artística para arremates finais”, explica.

Além disso, todos os brinquedos da praça da Comunidade de São José foram construídos nas medidas do conceito Urban95, que chama a atenção das pessoas para pensarem e projetarem cidades pela perspectiva de quem tem apenas 95 cm de altura, tamanho médio de uma criança por volta de três anos de idade.

Confira as imagens:

 

A relação entre o Plano Nacional Primeira Infância e as cidades

“Os municípios vão ter outra fisionomia a partir do momento em que decidem dizer: as crianças são cidadãs e têm direito à vida plena na cidade como qualquer outra pessoa”. Foi assim que o professor Vital Didonet começou sua fala para as novas cidades Urban95 na Oficina sobre o Plano Nacional Primeira Infância.

O encontro online aconteceu no dia 16 de novembro de 2021 e trouxe referências para a elaboração e implementação do Plano Municipal pela Primeira Infância. As 11 cidades que entraram na iniciativa este ano estão fazendo esse processo com apoio e acompanhamento do CECIP Centro de Criação de Imagem Popular.

A representante da Fundação Bernard Van Leer, Claudia Vidigal, falou sobre os avanços das cidades nos últimos meses. “Esse processo de parceria com a rede Urban95 não só dá os frutos que a gente busca estrategicamente, nos documentos e nos planos municipais pela primeira infância, mas também na mudança da realidade que acontece no território para cada uma das crianças”.

Em seguida, a coordenadora da Urban95 no CECIP, Isabella Gregory, contou que as concepções de infância têm sido discutidas nos encontros com os comitês intersetoriais de cada município. Uma das propostas da oficina foi aprofundar a visão da criança como sujeito de direitos e ser integral.

Referência na articulação de políticas públicas para a primeira infância, Vital é especialista em Educação Infantil, coordenador de participação social na elaboração do projeto de lei do Marco Legal da Primeira Infância e assessor legislativo da Rede Nacional Primeira Infância – RNPI.

Imagem do professor Vital Didonet, que fala sobre a relação entre o Plano Nacional Primeira Infância e as cidades

Professor Vital Didonet em evento da RNPI (Crédito: Isabella Gregory)

A visão das infâncias nos planos de ação

Na oficina, o professor explicou a relação entre concepções de infância, leis, políticas públicas e planos de ações. Para isso, traçou a trajetória dos principais documentos e marcos legais sobre a criança, pontuando diferenças e convergências.

“A criança é pessoa, é digna, é sujeito de direitos. O direito à educação é um direito dela, não é uma concessão da sociedade, não é um benefício oferecido, uma caridade que se dá. É um direito inalienável. Porque a criança é cidadã.”

– Vital Didonet, especialista em Educação Infantil e assessor legislativo da Rede Nacional Primeira Infância – RNPI

Essa visão integral da criança serviu de base para a criação de documentos e marcos legais, entre eles o Estatuto da Criança e do Adolescente e o Marco Legal da Primeira Infância. “Essas definições legais geraram políticas públicas, que foram para os planos de ação: nacional, estaduais e municipais. Então é preciso que a gente tenha na nossa cabeça concepções claras do que é ser criança.”

Os planos, segundo o especialista, organizam, instrumentalizam e definem o que será feito, onde, para quem, quando e por que meios. “Sem planos a gente fica atendendo demandas emergenciais. O plano se antecipa às demandas, porque tem um olhar abrangente para toda a realidade complexa da sociedade”.

PMPI, um plano intersetorial 

Nas últimas décadas, o Brasil teve grandes avanços na construção de planos de ação a favor da infância e da primeira infância. Nesse sentido, o Plano Nacional Primeira Infância (PNPI) veio para integrar os demais planos. “Esses planos não dialogavam entre si e, no entanto, a criança estava presente em todos eles. Para superar essa fragmentação, construímos um plano integral e integrado, que atende todos os direitos da criança de forma articulada”.

Por isso, o Plano Municipal pela Primeira Infância deve ser elaborado a partir das diretrizes do plano nacional, levando em conta a visão integral da criança e também a participação de diferentes atores. “Cada um vai se certificar do seu papel. O responsável pelo trânsito, ele vai pensar em passagens para pedestres, em tornar o ônibus acessível para a mãe com bebê de colo. Já o responsável pelo planejamento urbano vai pensar na iluminação pública, no esgoto que corre pela rua e prejudica a saúde da criança”.

Quer saber mais? Confira o vídeo completo da Oficina sobre o Plano Nacional Primeira Infância:

 

Município de Pelotas (RS) apresenta Diagnóstico da Primeira Infância com vistas à construção de seu Plano Municipal pela Primeira Infância

Na última quinta-feira (18), o município de Pelotas (RS) apresentou seu Diagnóstico da Primeira Infância, etapa-base da caminhada pela construção do Plano Municipal pela Primeira Infância. Apresentado em seminário online, o documento foi desenvolvido pelo Comitê Municipal Intersetorial da Primeira Infância de Pelotas em parceria com o Instituto da Infância – IFAN, por meio do Projeto Planos Primeira Infância (realização do IFAN com a Fundação Bernard van Leer e Instituto Cidades Sustentáveis).

Prefeita de Pelotas durante apresentação online do Diagnóstico da Primeira Infância

O estudo reúne números em indicadores setoriais que se relacionam direta ou indiretamente com a realidade das crianças de 0 a 6 anos da cidade de Pelotas. Os dados nas áreas de saúde, educação infantil, assistência social e outras permitirão ao Comitê Intersetorial identificar os desafios que se impõem à gestão pública no tocante à qualidade de serviços que a mesma oferece à população de primeira infância.

A exposição do Diagnóstico da Primeira Infância foi realizada por representantes das diversas secretarias do município e contou com a audiência de membros do Ministério Público; do presidente da Câmara de Vereadores da cidade, Cristiano Silva; do secretário estadual de Meio Ambiente e Infraestrutura, Luiz Henrique Viana, e da prefeita de Pelotas, Paula Mascarenhas. A gestora do executivo agradeceu aos parceiros da Rede Urban95 e reafirmou o Diagnóstico como passo fundamental no desenvolvimento de políticas em benefício da primeira infância do município. “Nós precisamos saber onde estamos para poder identificar onde queremos chegar e por que meios queremos chegar. Por isso nós precisamos do diagnóstico e precisamos de todos envolvidos nisso. Vocês veem aqui secretários e equipes de praticamente todas as secretarias da Prefeitura porque essa proposta de governo de cuidar e proteger a infância vai ser uma política transversal que vai envolver a todos”, afirmou a prefeita.

A leitura dos dados sócio-demográficos compilados no documento foi realizada por Jacqueline Dutra, representante da Secretaria Municipal de Saúde e responsável por coordenar as atividades do Projeto Planos Primeira Infância com o Comitê Intersetorial de Pelotas. A técnica agradeceu ao Instituto da Infância pelo suporte e orientação que este vem prestando ao grupo de técnicos e aos colegas de Comitê pela parceria e dedicação empenhadas na elaboração do Diagnóstico.

Neilza Buarque, consultora do Projeto Planos Primeira Infância, comentou a apresentação da equipe e lembrou a próxima fase de trabalho na construção do Plano Municipal pela Primeira Infância de Pelotas: a partir dos dados reunidos, identificar os desafios para a primeira infância da cidade e traçar estratégias e ações que possam vir a solucioná-los ao longo dos próximos dez anos, tempo de vigência do PMPI.

Veja algumas atividades para a primeira infância que ajudam no desenvolvimento infantil

Os primeiros anos são fundamentais na criação de uma base que irá impactar a vida adulta e o desenvolvimento infantil, sobretudo na primeira infância, o qual depende de estímulos. Milhares de informações são absorvidas o tempo inteiro no cérebro de um bebê e irão impulsionar a evolução das habilidades motoras e emocionais, do controle de comportamento, lógica, linguagem e memória. Continue reading

Fortaleza retoma Leitura na Praça por toda a cidade

Sabendo da importância da leitura como estímulo ao desenvolvimento integral na primeira infância, a Prefeitura de Fortaleza, cidade que integra a Rede Urban95, desenvolve desde 2019 o projeto Leitura na Praça, que oferta livros infantis, atividades de leitura e contação de histórias em espaços públicos da capital cearense. O programa estava paralisado em função da pandemia, mas acaba de ser retomado e já empolga crianças de várias idades. A intenção é passar dos 50 quiosques de leitura, por todos os bairros.

Projeto de incentivo à leitura é retomado em Fortaleza (Crédito: Prefeitura de Fortaleza)

Quiosques metálicos são instalados em praças e parques como uma espécie de biblioteca móvel, e recebem um kit com 30 títulos, sendo 12 exemplares de cada, totalizando 360 livros em cada stand. O acervo abrange as faixas etárias de 0 a 12 anos.

A instalação dos stands de leitura conta com a participação direta da comunidade, que recebe capacitações para a auto gestão dos espaços. O responsável atua de forma voluntária, firmando um Termo de Compromisso com a Prefeitura de Fortaleza para definir o horário de funcionamento e o sistema de organização daquele espaço de leitura.

O Programa Leitura na Praça segue orientações do Plano Municipal pela Primeira Infância de Fortaleza (PMPIF), criado pela Lei Nº 10.221, de 13 de junho de 2014. Como forma de integrar as políticas municipais de cuidado e promoção da cidadania entre crianças de 0 a 6 anos, o Plano indica um olhar para a cidade pela perspectiva das crianças, e o incentivo à leitura em espaços públicos é um bom exemplo de ação concreta para os pequenos.

Com apoio da Rede Urban95 Brasil, a cidade também está realizando intervenções do projeto Pé de Infância nos espaços onde o Leitura na Praça acontece, integrando cores, formas e músicas ao espaço urbano e arredores. Ao lado de cada quiosque de leitura a Prefeitura pretende realizar intervenções lúdicas, que estimulem o acesso à cidade, a circulação de bebês, crianças e cuidadores.

Conheça também: Instituto Cidades Fortaleza

O jogo como ferramenta: boas práticas urbanísticas para a primeira infância brasileira

Respondendo a pergunta “Se você pudesse vivenciar uma cidade a partir da altura de uma criança de três anos, o que mudaria?”, o grupo Lila Coletiva cria materiais e projetos que propõem estratégias e ferramentas direcionadas ao desenvolvimento de desenhos urbanos e ações comunitárias para a primeira infância.

O “Caderno de Ferramentas: soluções para de primeira infância em espaços públicos e modos ativos de deslocamento em Aracaju”, é resultado do chamamento feito em fevereiro de 2021 pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e pela Fundação Bernard van Leer. A metodologia serviu de base para outra publicação que acaba de surgir: “O Jogo como ferramenta: boas práticas urbanísticas para a primeira infância brasileira”. Ele nasce do desejo de aproximar tanto a administração pública quanto a sociedade civil dos desafios que enfrentamos nas cidades de maneira lúdica e de fácil entendimento.

A proposta de jogo parte de soluções de desenho urbano baseadas em normas e conhecimento técnico, experiências empíricas vivenciadas no contexto brasileiro e das diretivas do Manifesto Urban 95 para a Primeira Infância, acreditando que a reunião desses diferentes eixos contribuirá para o estabelecimento de soluções que guiarão decisões próximas às diferentes realidades brasileiras.

“Um jogo pode ser feito com cartas, dados coletados, estratégias, decisões, associações, tabuleiros, peças, corpo, entre outros elementos, mas ao ser codificado por um conjunto de regras, adquire um modo operacional de ação, um objetivo a cumprir e um tipo de relação entre os jogadores. São práticas especializadas que podem ser conectadas e realizadas em uma mesa, em uma casa ou em uma calçada”, exemplifica o grupo na apresentação.

A ideia de criar um jogo veio com a proposta de construir uma ferramenta de linguagem de compreensão universal em que acadêmicos, técnicos, gestores públicos e a população consigam dialogar com o mesmo instrumento.

“O jogo surge como um artefato que possibilita compartilhar os variados desejos, anseios e necessidades para a cidade, associando-os a possíveis soluções. Não existe vencedor!”, afirmam. A ação do jogo é ativar diversos sujeitos a construírem, durante a associação de cartas, possibilidades de cenários urbanos.

Em um evento online no canal do IAB, o arquiteto Igor Miranda contou sobre o processo de trabalho e apresentou o material que estará disponível para download em breve.

Assista ao vídeo:

A Coletiva Lilla e a busca por territórios inclusivos

Fundada em 2020, a Lila Coletiva é formada por uma equipe multidisciplinar que conta com vários profissionais do nordeste brasileiro.

A premissa do grupo é aproximar a sociedade civil e a gestão pública das questões urbanas, facilitando seu entendimento, ampliando o debate e contribuindo para a formação de territórios cada vez mais inclusivos.

Crato (CE) realiza Planejamento Estratégico do Plano Municipal pela Primeira Infância

O Comitê Municipal Intersetorial pela Primeira Infância do Crato (CE), cidade que integra a Rede Urban95, está a poucos passos de consolidar seu olhar sobre o que deseja para as crianças de 0 a 6 anos nos próximos dez anos.

Mais de 30 participantes, entre técnicos de secretarias municipais e representantes de organizações da sociedade civil, estiveram presentes no Seminário de Planejamento Estratégico do Plano Municipal pela Primeira Infância (PMPI) do Crato nos dias 4 e 5 de novembro.

Os servidores da cultura, educação, saúde, assistência social, desenvolvimento agrário, conselho tutelar e de outros setores da administração municipal foram convidados a pensar sobre os desafios que a gestão pública precisa enfrentar para garantir mais qualidade à sua primeira infância.

O Comitê traçou um plano de ação para inúmeros desafios que o município precisa superar, como ampliar o número de vagas na Educação Infantil, melhorar a mobilidade das crianças da zona rural, garantir maior cobertura vacinal, combater a desnutrição e reduzir a taxa de mortalidade infantil

Em declaração ao Portal do Ifan (Instituto da Infância), Ticiana Cândido, secretária de Desenvolvimento Social do Crato, o seminário proporcionou dias muito intensos, de muito aprendizado coletivo. “Contamos com a mediação do Ifan [Instituto da Infância], que vem nos ajudando como um diferencial na construção do nosso Plano Municipal pela Primeira Infância. Esses dois dias deram uma alavancada na construção do nosso Plano”, afirma.

Valorização da Primeira Infância

Não é a primeira vez que o município do Crato se propõe a pensar em uma legislação em prol da primeira infância. Em 2016, por incentivo do Selo Unicef, uma comissão intersetorial formada majoritariamente por entidades da sociedade civil chegou a elaborar um PMPI e aprová-lo no Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA).

O servidor Pedro Lucas Juvino, que atua na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (SMDS) como mobilizador de adolescentes do NUCA (Núcleo de Cidadania dos Adolescentes do Crato, iniciativa do Unicef) e integrante do Comitê Intersetorial pela Primeira Infância do município, conta ter participado do processo de criação daquela versão do Plano.

Desta vez, ele espera que as ações previstas pelo Plano não fiquem somente “no papel”. “Me sinto extremamente honrado em participar novamente dessa construção e espero que a gente também consiga executá-la, que o Plano não fique como o anterior, apenas na letra da lei”, compartilhou ao Portal do Ifan.

Com informações do portal Instituto da Infância

Niterói inaugura ciclovias verdes e lúdicas para a primeira infância

As celebrações pelo Mês da Criança não acabam entre as cidades da Rede Urban95 Brasil, e desta vez foi Niterói que presenteou a população com um novo projeto, que tem como público todas as crianças, dos 0 aos 100 anos. O Rotas Caminháveis foi lançado no último sábado (23.10) com participação da comunidade, muito ciclismo, intervenções e pinturas.

Em parceria com a Rede Urban95, a Prefeitura de Niterói está requalificando um trecho para pedestres e ciclistas e com foco na circulação de crianças de 0 a 6 anos. O Rotas Caminháveis é um projeto intersecretarial que pensa a criação de trajetos lúdicos e interativos para proporcionar um caminhar agradável e seguro para as crianças e famílias.

Ciclovia em Niterói é espaço para as crianças (Felipe Cardoso/Escola de Notícias/Urban95 Brasil)

A experiência piloto do projeto está sendo feita no bairro do Barreto, na zona norte de Niterói, e a prefeitura tem previsão de expandir a proposta para outras regiões da cidade. A escolha da área levou em consideração a presença de escolas, creches e a proximidade com o Horto do Barreto, justificando a grande circulação de crianças observada. O traçado considera a caminhabilidade e segurança de pessoas com mobilidade reduzida e ciclistas, além de promover uma caminhabilidade mais agradável e lúdica para as crianças e seus cuidadores.

A rota que está sendo transformada no Barreto se estende por 1,4km, desde  a Rua Benjamin Constant na altura da Rua Francisco Portela, passando pela Rua Presidente Craveiro Lopes e finalizando na Rua Doutor Luiz Palmier. Ao longo de toda a rota, parte do espaço destinado para os carros foi transformado em espaço para os ciclistas e pedestres, com a criação de uma extensa ciclofaixa, com a pintura de  ‘vagas verdes’, aumentando a largura da calçada, melhorando a qualidade ambiental do percurso e a segurança para os pedestres.

Floreiras foram instaladas para embelezar o trajeto e criar uma zona de proteção para esses espaços que expandiram as calçadas e ganharam a pintura verde . Dezenas de vagas de carros foram retiradas nesse processo, qualificando a região para os ciclistas, pedestres, impactando na qualidade do ar,  diminuindo a poluição visual, favorecendo experiências mais promissoras para os desenvolvimento das crianças pequenas de Niterói

As crianças participaram do processo de transformação da rota (Felipe Cardoso/Escola de Notícias/Urban95 Brasil)

Com um processo de escuta e participação das crianças, a programação do  lançamento público contou ainda intervenções artísticas e o Pedal das Crianças, trajeto todo acompanhado por operadores da NitTrans. Desde que aderiu à Rede Urban95 Brasil, em março de 2020, a cidade vem recebendo formação para servidores municipais e capacitações técnicas com consultores e especialistas, um conjunto de ações que vem potencializando os esforços de Niterói para construir uma cidade melhor para bebês, crianças e cuidadores. O município fluminense está implementando estratégias do Pé de Infância.

Experiências de uso de dados a favor da primeira infância

Como usar dados para elaborar políticas públicas para crianças pequenas e suas famílias? Esse foi o ponto de partida do Webinar Gestão de dados a favor da primeira infância, realizado pela Urban95. O encontro aconteceu em 20 de outubro de 2021, das 9h às 10h30, e trouxe experiências de diagnóstico e análise de informações sobre bebês, crianças pequenas e cuidadores em São Paulo (SP) e Sobral (CE).

Para início de conversa, os participantes receberam as boas-vindas da coordenadora de programas da Fundação Bernard Van Leer, Thais Sanches. “Estamos muito felizes de ver as novas cidades Urban95 se integrando e abraçando a agenda da primeira infância. Queremos fortalecer cada vez mais a troca entre as cidades da iniciativa”, afirmou.

Em seguida, a coordenadora da Urban95 no CECIP Centro de Criação de Imagem Popular, Isabella Gregory, deu um panorama das ações Urban95 nos 11 municípios acompanhados pela organização. Entre os destaques estão as escutas de crianças em Benevides e Alcinópolis, e a realização do Urban Hackathon Teresina 2030. Além disso, todas já formaram seus comitês pela primeira infância, e a maioria está trabalhando nos diagnósticos territoriais.

Três formas de usar dados a favor da primeira infância

A construção do diagnóstico situacional da primeira infância foi abordada nas duas primeiras experiências apresentadas no evento. Para começar, a especialista em dados da Rede Nossa São Paulo Paloma Lima explicou como o uso de dados ajuda gestores e gestoras a serem estratégicos e assertivos nas suas decisões. Ela também mostrou o Mapa da Desigualdade da Primeira Infância e destacou a importância de olhar para as múltiplas desigualdades.

“O monitoramento é uma maneira de avaliar quanto cada cidade está avançando na redução da desigualdade e também nas pautas da primeira infância”

– Paloma Lima, especialista em dados da Rede Nossa São Paulo.

Depois foi a vez de ouvir a coordenadora da Política Municipal Integrada pela Primeira Infância da cidade de São Paulo, Karina Tollara. A especialista falou sobre o processo de elaboração do PMPI do município, que foi inspirado no Mapa da Desigualdade. O primeiro diagnóstico foi realizado em 2018 e o segundo em 2021, quando foram incluídos dados de raça e cor, além de mortes por Covid-19.

O momento de troca de experiências foi finalizado com o relato de Sobral (CE), cidade que entrou para a iniciativa Urban95 este ano. Quem falou foi Carlos Romualdo, gerente da Estratégia Trevo de Quatro Folhas, um programa de atenção à redução da mortalidade materna e infantil. Ele contou como o município identificou e encaminhou, com o apoio de dados, a necessidade de potencializar o cuidado com recém-nascidos prematuros e com crescimento intra-uterino restrito.

Confira o vídeo do encontro completo, que também contou com a participação do público com perguntas e comentários:

Boa Vista encerra o Mês da Infância com novo parque interativo para crianças refugiadas

O centro de acolhida Rondon 3 é o primeiro de Boa Vista a ganhar um espaço de lazer desenhado para a primeira infância, com brinquedos interativos, pinturas em cores vibrantes e espaços de descanso e sombra para crianças e cuidadores. A inauguração, que encerrou as comemorações do Mês da Criança na capital, contou com a participação da banda do Exército e uma série de atividades para as crianças.

Uma área de quase 2.000 m² abrange quadra e um parquinho infantil, com estrutura de sombra e iluminação para o período noturno. A ideia agora é criar novos espaços interativos nos abrigos Rondon 1 e Pricumã, com o objetivo de aumentar o acesso de crianças refugiadas a espaços de lazer públicos, seguros e divertidos.

Crianças que participaram da inauguração (Crédito Amanda Neves/AVSI)

O processo de migração apresenta uma série de desafios para aquelas crianças que estão nos primeiros anos de vida, quando o desenvolvimento é acelerado e a plasticidade cerebral conta, em grande medida, com experiências e vivências enriquecedoras para se formar plenamente. Com esse desafio em mente, o  desenho do espaço foi pensado segundo princípios que atendem a primeira infância, com incentivos visuais e sensoriais, mas também oferecem segurança e conforto.

Parque recém inaugurado em Boa Vista (Crédito Amanda Neves/AVSI)

Scale-Up Urban95 em Boa Vista

A comunidade venezuelana recebeu o espaço em ação organizada entre a Prefeitura de Boa Vista, a Operação Acolhida, que recebe migrantes e refugiados provenientes da crise humanitária na Venezuela, e apoio do escritório ACNUR na cidade. Faz parte do programa Scale-Up Urban95 Boa Vista, gerenciado em parceria entre a Fundação Bernard van Leer e a AVSI Brasil.

O programa Scale-up Urban95 desenvolveu 17 iniciativas de ação pela primeira infância para apoiar as cidades e gestores públicos, divididas entre os eixos de mobilidade, políticas públicas e ampliação de serviços através do uso de tecnologia. Em Boa Vista tem apoiado o desenvolvimento de políticas e programas de Primeira Infância com uso de tecnologia e baseada em dados.

Gestão de dados a favor da primeira infância: modos de fazer

Quantas crianças têm acesso a creches no seu município? Qual é a cobertura vacinal na primeira infância? E os espaços públicos, são utilizados por todas as crianças da cidade? Buscar respostas para essas e outras perguntas é uma forma de usar a gestão de dados a favor da primeira infância.

A tomada de decisão com base em dados já é uma estratégia utilizada na gestão pública para qualificar ações, programas e serviços. Na prática, isso significa coletar, produzir e analisar informações locais sobre as realidades do município. Um dos objetivos desse processo é não deixar ninguém para trás, especialmente as crianças e famílias vulneráveis ou invisibilizadas, como as negras, indígenas, quilombolas, por exemplo.

Para entender como incluir a gestão de dados a favor da primeira infância nos municípios, conversamos com Márcia Thomazinho, que é consultora do CECIP Centro de Criação de Imagem Popular, e tem 20 anos de experiência em políticas públicas para a infância e adolescência. A especialista também apoia cidades Urban95 na construção do Plano Municipal pela Primeira Infância. Confira a entrevista completa:

1) Qual é a importância de fazer a gestão de dados para políticas públicas focadas na primeira infância?

Usar essa estratégia é essencial para que a gestão municipal e a sociedade planejem e construam programas, serviços e ações efetivos para a primeira infância. Para o pesquisador Paulo de Martino Jannuzzi, os indicadores permitem traduzir conceitos, demandas e dimensões sociais. Eles são uma representação numérica da realidade e podem apresentar a tendência dos dados, como, por exemplo, a evolução da taxa de mortalidade infantil. Com base na análise dessas informações, identificamos os desafios que o município precisa analisar para planejar estratégias e ações.

Vale destacar que, quando falamos em primeira infância, pensamos em Saúde, Assistência e Educação, mas é preciso ir além. A construção de uma cidade para crianças pequenas e suas famílias deve envolver todas as áreas do município, entre elas cultura, mobilidade, meio ambiente, urbanismo e outras.

Essa articulação intersetorial é importante para a formulação de políticas e elaboração do Plano Municipal pela Primeira Infância (PMPI). Além de ser o cumprimento de um preceito constitucional, o PMPI é também uma oportunidade de aprimorar o desenvolvimento local e transformar a vida das crianças e da população do município.

Foto da especialista Marcia Tomazinho fala sobre gestão de dados a favor da primeira infância

A consultora do CECIP Márcia Thomazinho, que tem 20 anos de experiência em políticas públicas para a infância e adolescência. (Crédito: Arquivo pessoal)

2) A Rede Urban95 apoia os municípios parceiros na constituição do PMPI, e uma das primeiras etapas desse processo é a construção de um diagnóstico. Você pode falar um pouco sobre esse processo?

As primeiras etapas são a decisão do prefeito, a constituição do Comitê com sociedade civil e poder público e o alinhamento do conceito integral de criança. É importante que todos os envolvidos neste processo entendam o que são as infâncias, suas necessidades e oportunidades.

O diagnóstico é um processo relevante para a implementação das políticas públicas e é por meio dele que identificamos os desafios, bem como suas causas e consequências. É uma fotografia da realidade que precisa ser transformada. Por isso, é necessário avaliar periodicamente essa fotografia e identificar se o caminho escolhido para transformar a realidade está correto.

3) Quais são as etapas para a elaboração dessa fotografia do município?

A primeira etapa é definir quais são os dados e as informações que precisam ser levantadas. Quais são as fontes disponíveis para essa coleta? São fontes confiáveis? Em seguida, é feito o levantamento dos dados. Para isso, é fundamental definir uma linha de base e coletar informações de anos anteriores para analisar a tendência de cada dado.

Com os dados em mãos, é o momento de analisar essas informações e identificar quais desafios o município precisa enfrentar, suas causas e consequências, para definir as estratégias necessárias para a mudança. Também é importante avaliar o que o município já faz, e dentro disso o que está funcionando e o que pode ser aprimorado.

Outra etapa que não pode ser negligenciada é o desenvolvimento de um olhar atento a todas as crianças do território municipal, sensível às suas diferentes infâncias, aos problemas, aos valores e às possibilidades dos contextos em que vivem. Não podemos deixar ninguém para trás. Para isso, é essencial reconhecer e identificar as crianças invisíveis.

O Guia para Elaboração do Plano Municipal pela Primeira Infância também traz a importância da escuta das crianças na formulação das políticas e das ações que lhe dizem respeito. É preciso promover a inclusão social da criança como cidadã, conforme a especificidade de sua idade, e com apoio de profissionais qualificados em processos de escuta adequados às diferentes formas de expressão infantil.

4) Quais são as principais orientações para a escolha dos indicadores e temas a serem trabalhados no diagnóstico da primeira infância no município?

Na iniciativa Urban95, trazemos diversos indicadores e temas para serem trabalhados pelos municípios. Focamos em fontes confiáveis, na evolução de indicadores e buscamos dados e informações com base no Plano Nacional pela Primeira Infância, Guia para elaboração do PMPI e no Guia Urban 95.

Também entendemos que cada município tem uma peculiaridade e é importante respeitar essa diversidade. Por isso, ainda podemos incluir indicadores para que o diagnóstico expresse a essência de cada município. Por exemplo, características específicas de população, doenças mais ampliadas em uma determinada região, entre outras.

Vale ressaltar que o diagnóstico também nos ajuda a ter uma fotografia do município, que podemos ver de tempos em tempos. Então, quando um município já tem PMPI e elaborou o diagnóstico situacional, é importante rever essa fotografia constantemente. Inclusive, o monitoramento e a avaliação são fundamentais para saber se o caminho escolhido está transformando a realidade da forma esperada. Se a resposta for negativa, é hora de recalcular a rota.

Uma dica importante é, ao olhar novamente essa fotografia, ficar atento a aspectos que não foram previstos anteriormente, e precisam ser visualizados agora. Por exemplo, a pandemia de Covid-19.

Na prática: ações de gestão de dados a favor da primeira infância

  • Projeto Ligue os Pontos (São Paulo): O acesso à alimentação saudável e o desenvolvimento sustentável do território rural é fundamental para a qualidade de vida de bebês, crianças pequenas e suas famílias. É nesse sentido que vai a iniciativa Ligue os Pontos, que conecta os produtores locais com mercados e consumidores e estimula o desenvolvimento dos agricultores com uma série de ações. Desenvolvido pela Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento com outras secretarias e órgãos da Prefeitura de São Paulo, o projeto usa a tecnologia para mapear, integrar e incentivar iniciativas e informações de agricultura local na cidade.

  • Elaboração do Plano Municipal pela Primeira Infância de Nova Iguaçu (RJ): A ampla participação social, inclusive de crianças, é um dos pontos fortes da criação do Plano Municipal pela Primeira Infância de Nova Iguaçu, município do Rio de Janeiro. Referência no Brasil, o processo contribuiu para a formação dos profissionais envolvidos e considerou a visão da população infantil local. Isso aconteceu, principalmente, durante a etapa do diagnóstico situacional de Nova Iguaçu.

  • Mapeamento de dados para definir programa de visitas domiciliares em Istambul: Com investimento da Urban95, a cidade de Istambul, na Turquia, criou uma série de mapas para identificar necessidades e oportunidades para a primeira infância em quatro distritos do município. O objetivo foi aprimorar os serviços de visitas domiciliares e definir a alocação de recursos, visualizando onde e como estavam as crianças em maior situação de vulnerabilidade. Os mapas também serviram para planejar melhorias no design e no uso de parques e espaços públicos para crianças pequenas e famílias.

Exemplo de projeto de gestão de dados a favor da primeira infância

Conheça mais três experiências apresentadas no Webinar Gestão de Dados à favor da Primeira Infância, realizado em outubro de 2021. Assista ao vídeo completo!

A importância das interações positivas na primeira infância

Não é novidade que os primeiros anos de vida de uma pessoa é o período no qual o cérebro mais se desenvolve. O que acontece e aprendemos durante a primeira infância tem impacto pelo resto da vida. E o que mais contribui para um bom desenvolvimento da criança nesse período são interações positivas com seus cuidadores, além das experiências vividas. Continue reading

Um bom planejamento urbano para vivência e ensinamento das crianças

planejamento urbano

Proporcionar ambientes seguros e lúdicos para a primeira infância deve ser objetivo do planejamento urbano das cidades. Calçadas bem-pavimentadas, por exemplo, podem permitir que bebês e crianças pequenas explorem a imaginação em um trajeto seguro até a escola. Mães, pais e cuidadores também se beneficiam desse cuidado no desenvolvimento da cidade por meio da busca pelo design amigável para famílias. Continue reading

Um novo espaço para a primeira infância em Brasiléia

A Semana da Criança foi celebrada com muita festa em Brasiléia, cidade acreana e membro da Rede Urban95 Brasil. Na inauguração da praça do bairro Leonardo Barbosa as crianças da cidade participaram de brincadeiras, contação de histórias e várias atividades de integração com o novo espaço. O espaço foi totalmente revitalizado e conta agora com uma série de intervenções artísticas.

Os créditos da imagem são do artista Wando Cunha.

Além de moradores e muitas crianças, estiveram na inauguração secretários municipais e representantes do comitê intersetorial para a primeira infância, que vem acompanhando as ações da cidade no tema.

Wando Cunha, artista conhecido localmente como o “Borracha”, desenvolveu figuras de animais da fauna local para agregar aos brinquedos infantis da praça, trazendo ainda mais diversão e criatividade para as crianças. A cidade ganha de todos os lados. Com mais um espaço público que incentiva o brincar livre, criativo e ao ar livre na primeira infância, os pais e cuidadores também se beneficiam da convivência e novas relações com a comunidade.

Créditos: Wando Cunha.

 

A cidade já vem realizando outras intervenções voltadas ao público infantil em espaços públicos locais, como a Praça Hugo Poli, que recebeu pinturas no piso para incentivar brincadeiras ao longo dos percursos das crianças e a ‘muretinha da fama’, que registra as mãos dos pequenos habitantes de Brasiléia. Essas ações buscam atrair os pequenos para o espaço urbano de forma segura e divertida, entendendo que são esses os futuros cidadãos da cidade.

Créditos: Prefeitura de Brasileia

Prefeitura de Fortaleza celebra o Dia das Crianças com a inauguração de seu segundo parque naturalizado

A inauguração do micro parque Seu Zequinha marcou o 12 de Outubro na capital Fortaleza, que conta agora com mais uma oferta de área verde para bebês, crianças e famílias. Além de um espaço de lazer e descanso, “bolhas verdes” como esta ajudam a amenizar as temperaturas nas cidades, incentivam a biodiversidade, a ocupação do ambiente público e o estreitamento das relações comunitárias, mostrando como iniciativas de escala local podem beneficiar a todos. Continue reading

PARA OUVIR: “As políticas de educação infantil são um direito das crianças e também das mulheres”, afirma Raquel Lyra

Prefeita da cidade pernambucana de Caruaru, Raquel Lyra foi a primeira mulher eleita ao executivo local, ainda em 2016. Reeleita no último ano com mais de 100 mil votos, é hoje também Presidente do G100 (grupo das cidades com mais de 80 mil habitantes e alta vulnerabilidade socioeconômica e baixa renda per capita), dentro da Frente Nacional dos Prefeitos, FNP. Essa posição de liderança reflete o trabalho que a prefeita da maior cidade do interior de Pernambuco tem desenvolvido em sua gestão, especialmente em políticas para as crianças.

Nossa convidada do último episódio do podcast Futuros Urbanos contou mais sobre a entrada de Caruaru na Rede Urban95 Brasil, os desafios e investimentos da cidade e políticas para bebês, crianças pequenas e seus cuidadores. “Fui eleita com um grande sonho, escrito em meu plano de governo, que é transformar a cidade pela educação. Poder garantir às crianças desde cedo o desenvolvimento integral em suas várias faces de sociabilidade, educação, nutrição”, se apresenta Raquel.

Ouça a conversa completa:

Para tal, o maior desafio da prefeita tem sido a expansão da rede escolar, que foi quadruplicada desde o início da gestão, além de passar por uma expansão e requalificação dos espaços infantis. O programa “Primeira Infância de Caruaru” agrega programas intersetoriais do município e que tem como foco os bebês e crianças pequenas, de forma que os serviços cheguem integrados. A Prefeitura tem investido no uso e análise de dados para aprimorar os serviços públicos e cercar as crianças do que precisam para ter suas necessidades de desenvolvimento plenamente atendidas.

Raquel Lyra reforçou também a importância da Rede Urban95 na avaliação dos impactos e resultados das políticas que a cidade tem desenvolvido. “As trocas com outras cidades, o uso de tecnologia e a integração de dados fez com que Caruaru desse um grande salto de qualidade e eficiência na oferta de serviços. Afinal, infância só temos uma, não podemos perder as crianças que estão aqui e agora”, completa a prefeita.

Fortaleza e Jundiaí são algumas das cidades da Rede que já estão compartilhando experiências com Caruaru, um trabalho em conjunto e que corta caminhos para a gestão. Na conversa Raquel reforçou também a importância de sensibilizar as equipes, e afirma que os servidores de Caruaru estão passando por uma grande transformação em seu modelo mental. A prioridade de Caruaru é a primeira infância, que está sendo considerada desde o desenho de cada programa e projeto.

A cidade está desenhando a primeira conexão de um centro de educação infantil para a estação ferroviária da cidade, uma intervenção em parceria com a Rede Urban95 para adaptar o percurso das crianças, desde a saída da escola. Observando calçadas e ruas seguras, intervenções urbanas lúdicas e outras ideias inovadoras, a Caruaru se prepara para construir uma cidade melhor para todas as crianças.

Primeira infância e espaços públicos

Estratégias de acesso ao espaço público, como meios de transporte seguros e um planejamento de bairro que considere as famílias, apoiam um desenvolvimento infantil pleno, já que os bebês e crianças pequenas dependem de um ambiente limpo, saudável e estimulante. São também formas de garantir aos pequenos alguns direitos básicos de todos os que vivem nas cidades, como infraestrutura urbana, serviços públicos e lazer. O acesso à cidade contribui ainda para a construção de um pertencimento e sentimentos de comunidade, em que todos são agentes no território.

Para os bebês e crianças pequenas, o acesso aos espaços públicos está diretamente relacionado com a segurança, conforto e bem-estar que o território oferece aos olhos dos cuidadores, já que as crianças não circulam sozinhas pela cidade. Calçadas largas e bem iluminadas, travessias viárias seguras e a presença de bancos, banheiros e espaços de descanso ao longo das rotas urbanas também apoiam as famílias a ocuparem os espaços públicos.

O design urbano para famílias também considera a perspectiva de bairros, onde as famílias podem realizar suas principais atividades a pé. Um bairro que ofereça fácil acesso e promova a utilização de serviços essenciais com uma viagem curta (15 minutos) e acessível em custo vai beneficiar diretamente os primeiros anos de vida da criança, ou seja, a primeira infância. Um bairro que proporcione uma comunidade animada, solidária e segura e um entorno confortável e estimulante para o desenvolvimento de crianças pequenas e para o bem-estar de seus cuidadores. 

As ruas, calçadas, praças e parques públicos permitem trocas e a criação de vínculos com a cidade e entre a comunidade. Como desbravadoras natas, as crianças estão constantemente testando e aprendendo quando interagem com o espaço e pessoas ao seu redor, e as mais simples experiências podem significar muito para seu desenvolvimento. Defendemos a promoção de lugares seguros, acessíveis, confortáveis e estimulantes para bebês, crianças e seus cuidadores e cujo uso seja promovido ativamente com o objetivo de maximizar a frequência, qualidade e intensidade de interações positivas entre crianças e seus cuidadores.

Crianças e o acesso à cidade

Cuidando daqueles que vivenciam a cidade de formas diferentes

Atualmente, mais de um bilhão de crianças moram em cidades. Cidades podem ser lugares maravilhosos para crescer, mas também podem apresentar sérios desafios para a saúde e o bem-estar de bebês, crianças pequenas e das pessoas que cuidam deles – que vão da escassez de espaços na natureza e de lugares seguros para brincar, poluição do ar e congestionamentos de tráfego ao isolamento social. Ao mesmo tempo, a urbanização está crescendo tão rapidamente que as cidades representam uma oportunidade única para ajudar bebês e suas famílias a prosperarem. 

Para o desenvolvimento cerebral máximo, crianças pequenas precisam de uma alimentação saudável, proteção e – decisivamente – muitas oportunidades de brincar e de serem amadas. Isso significa que bebês e crianças pequenas precisam de cidades com espaços seguros e saudáveis, onde os serviços essenciais sejam de fácil acesso, que permitam interações afetuosas frequentes e responsivas com adultos carinhosos e que ofereçam um entorno seguro e fisicamente motivador para brincar e explorar.

As cidades podem incentivar o acesso dos bebês, crianças pequenas e cuidadores ao espaço público de diversas maneiras, inclusive com intervenções práticas para transformar o espaço urbano considerando um design urbano para famílias. Um desafio é propagar esses princípios de design para que eles exerçam mais impacto sobre áreas mais vulneráveis. Urbanistas e designers podem apoiar um desenvolvimento infantil saudável criando e instalando espaços que facilitem o bem-estar da criança e do cuidador e que promovam comportamentos positivos de cuidado.

Cuidados responsivos e a importância dos cuidadores

A relação entre os bebês e crianças pequenas com seus cuidadores tem uma grande influência em todas as esferas de seu desenvolvimento. Em um período em que os cérebros se desenvolvem mais rapidamente do que nunca, as experiências vividas têm um impacto profundo e duradouro sobre a saúde e capacidade de aprender e de se relacionar. As experiências vividas durante esse período moldam permanentemente nossos cérebros, com marcas para o resto da vida adulta. 

Os cuidadores são responsáveis pela segurança e saúde das crianças, assim como por sua alimentação, acesso a serviços de saúde e educação. As experiências e cuidados oferecidos pelos pais e cuidadores são a base de oportunidades para o desenvolvimento dos bebês, razão pela qual é tão importante que esses adultos recebam apoio material e comunitário, orientação adequada e tenham acesso a todos os direitos e serviços de que necessitam para oferecer as melhores oportunidades às crianças, em um ambiente estável, saudável e estimulante.

Estudos mostram que um cuidado afetuoso, estimulante e responsivo é um dos melhores indicadores de que essas crianças serão bem-sucedidas na escola e adultos mais felizes e bem-sucedidos. Sabemos, por outro lado, que crianças que passam por uma sequência de situações de estresse, negligência ou violência de diversas formas durante a primeira infância têm comprometimentos perenes em sua estrutura cerebral e de relações interpessoais. Condições como a depressão materna, que afeta hoje 13% das novas mães em todo o mundo e 20% daquelas que vivem em países de renda baixa, atrapalha o vínculo entre mãe e filho e tem efeitos negativos sobre seu desenvolvimento.

Práticas parentais negativas e o desenvolvimento na primeira infância

Mães, pais e cuidadores têm demandas específicas na cidade

Castigos físicos e psicológicos são particularmente prejudiciais para bebês e crianças pequenas devido a seu maior potencial para lesões físicas, à incapacidade da criança entender a motivação por trás do ato e à falta de ferramentas cognitivas para compreensão. Sabemos também que, em situações de vulnerabilidade, os cuidadores têm mais dificuldade em oferecer as melhores condições para os bebês e crianças, material e emocionalmente, razão pela qual é importante investir em políticas de atenção integral aos bebês, crianças pequenas e suas famílias. 

As práticas parentais negativas incluem dificuldade em relações responsivas, boa interação com os filhos e atenção à necessidade de serviços médicos, educativos e de assistência. Crianças cujos cuidadores sofrem de alguma doença mental têm um risco maior de atrasos no desenvolvimento, assim como problemas de saúde mental e social na vida adulta. Embora a maior parte das pesquisas tenha se concentrado no papel da saúde mental das mães, há fortes evidências que enfatizam a influência dos pais e de outros cuidadores primários. 

O entorno físico também é um fator que afeta a saúde mental dos cuidadores, como a percepção de segurança e a oferta de espaços públicos confortáveis, os níveis de ruído, calor e qualidade do ar nas cidades, além da oferta de áreas verdes e opções de lazer. Os planejadores urbanos e gestores públicos podem contribuir para os cuidadores de bebês e crianças pequenas ao incluir a pauta da acessibilidade, segurança e oferta de espaços de convivência familiar nos projetos das cidades, incentivando experiências mais agradáveis e que diminuam o estresse cotidiano. 

Praças, parques e áreas de descanso ao longo das rotas caminháveis, a implementação de calçadas largas e travessias de pedestre são alguns exemplos de intervenções urbanas que ajudam os pais e cuidadores a se sentirem mais seguros nos espaços públicos, incentivando sua presença com crianças.

Qualidade do ar e primeira infância – Urban95 Convening 2021

Urban95 Convening é o evento anual da Fundação Bernard van Leer, este ano tratando sobre a importância da qualidade do ar nas cidades, como ela afeta a primeira infância e possíveis soluções. Realizado em parceria com o Instituto Saúde e Sustentabilidade, o evento aconteceu nos dias 8 e 10 de setembro, com especialistas de diferentes áreas apresentando dados sobre o contexto brasileiro. Gestores públicos e sociedade civil também debateram propostas e projetos em andamento em âmbito municipal e estadual.

Confira os principais pontos discutidos em cada palestra, a partir das facilitações gráficas realizadas pelo Coletivo Entrelinhas.

*Clique nas imagens para vê-las com melhor qualidade

DIA 1 – ENTENDENDO A PANDEMIA INVISÍVEL

Contextualização da poluição do ar no Brasil e a sua relevância em bebês e crianças

Dra. Evangelina Vormittag, médica patologista e idealizadora do Instituto Saúde e Sustentabilidade

Contextualização da poluição do ar no Brasil e a sua relevância em bebês e crianças

Impacto da poluição do ar na saúde dos bebês e crianças

Dr. Carlos Augusto Mello da Silva, Presidente do Departamento Científico de Toxicologia e Saúde Ambiental da Sociedade Brasileira de Pediatria

impacto da poluição do ar na saúde dos bebês e crianças

Litigância climática e estratégica na defesa do direito das crianças

Danilo Farias, Advogado no projeto de Justiça Climática e Socioambiental do Instituto Alana

litigância climática e estratégica na defesa do direito das crianças

Qualidade do ar nos espaços da primeira infância

Luana Ferreira Vasconcelos, pesquisadora na Universidade de São Paulo
Ursula Troncoso, comanda o Ateliê Navio e é consultora da Urban95 no Brasil

qualidade do ar nos espaços da primeira infância

Reflexões final e debate com a comunidade

Marcel Martin, Coordenador do portfólio de transportes no Instituto Clima e Sociedade

reflexões final e debate com a comunidadeDIA 2 – EXPERIÊNCIAS E INICIATIVAS EM CIDADES BRASILEIRAS

O Estado da Qualidade do Ar no Brasil

Carolina Genin, diretora do Programa de Clima do WRI Brasil

O Estado da Qualidade do Ar no Brasil

Experiência em Fortaleza

Luiz Alberto Saboia, presidente da Fundação de Ciência, Tecnologia e Inovação – Citinova da Prefeitura Municipal de Fortaleza

Experiência em Fortaleza

Experiência em Belo Horizonte

Fabiano Pimenta, Subsecretário de saúde de Belo Horizonte

Experiência em Belo Horizonte

A iniciativa de monitoramento de qualidade do ar por equipamentos de baixo custo no estado do Acre

Dra Rita de Cássia Nogueira Lima, procuradora do Ministério Público do Acre

A iniciativa de monitoramento de qualidade do ar por equipamentos de baixo custo no estado do Acre

Reflexões final e debate com a comunidade

Hannah Arcuschin Machado, projects manager na Vital Strategies

Reflexões final e debate com a comunidade

As gravações dos eventos estão disponíveis no Canal da Urban95 no YouTube:

Encontro Nacional 08/09 >> ENTENDENDO A PANDEMIA INVISÍVEL
Encontro Nacional 10/09 >> EXPERIÊNCIAS E INICIATIVAS EM CIDADES BRASILEIRAS

 

Programas e projetos acolhedores para a primeira infância

O Plano Nacional pela Primeira Infância, aprovado em 2010, é uma referência importante para a construção de ações e agendas locais, atribuindo ao governo e à sociedade um compromisso com a primeira infância. O Marco Legal da Primeira Infância, instituído pela Lei 13.257 de 2016, recomenda a elaboração de Planos Municipais da Primeira Infância para a articulação da gestão pública local, indicando objetivos e prioridades para que as cidades possam garantir o acesso das crianças a serviços e direitos.

Mas o Brasil também conta hoje com uma diversidade de programas e projetos que se dedicam a gerar transformações positivas na vida dos bebês, crianças pequenas e seus cuidadores, melhorando indicadores de desenvolvimento da primeira infância e ampliando o acesso a direitos e oportunidades para as crianças.

Conheça algumas das iniciativas inovadoras pela agenda da primeira infância:

Observatório da Primeira Infância

Criado com o propósito de contribuir com o movimento de colocar a criança no foco da gestão pública e do desenvolvimento urbano justo e sustentável, o Observatório da Primeira Infância é uma ferramenta para gestores, planejadores urbanos e sociedade. Afinal de contas, a cidade que se atenta às demandas da primeira infância promove, antes mesmo do nascimento, a cidadania. 

O Observatório da Primeira Infância reúne 130 indicadores específicos sobre temas que se dirigem à primeira infância, selecionados de três fontes distintas, sendo a Urban95, da Fundação Bernard van Leer; o Programa Cidades Sustentáveis, que conta com indicadores alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU; e o Prêmio Cidade da Criança. Com dados em mãos, gestores e planejadores podem se orientar sobre a elaboração de políticas específicas para os cidadãos de zero a seis anos.

Primeira Infância Melhor (PIM)

O Programa Primeira Infância Melhor (PIM) nasceu em 2003 e hoje está em uma dezena de cidades gaúchas, atendendo a 35 mil famílias e 5 mil gestantes por ano. O objetivo do programa é integrar o atendimento da assistência, da educação e da saúde para alcançar o protagonismo das famílias no desenvolvimento infantil, incentivar a cidadania, a educação, a autoestima e, consequentemente, quebrar o ciclo da pobreza.

Pioneiro na orientação e acolhimento familiar, o programa ajudou a reduzir a mortalidade materna no estado, que antecipou o cumprimento da meta estabelecida nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). A promoção do desenvolvimento integral na primeira infância, da gestação aos 6 anos, é reforçada pelo fortalecimento de vínculos familiares e melhores índices de atendimento e acesso a serviços, entre eles saúde, creches, conselho tutelar etc.

Programa Criança Feliz

Criado em 2016 pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário para integrar ações nas áreas de educação, saúde, justiça e cultura, para crianças de 0 a 3 anos, o programa é tido como apoio importante no desenvolvimento das ações de primeira infância. 

Mãe Coruja Pernambucana

Criado em 2007 e tornado lei em 2009, o projeto integra 11 secretarias e beneficia 105 municípios, que contam com o acompanhamento das gestantes durante o pré-natal e crianças até seus 5 anos. O programa alcançou redução da mortalidade neonatal e dos índices de baixo peso ao nascer e aumentou a presença das gestantes no pré-natal e o aleitamento materno, diminuindo ainda o índice de gravidez na adolescência. Oferece apoio integral às gestantes e aos seus bebês com um olhar atento ao desenvolvimento integral nos primeiros anos de vida. 

São Paulo pela Primeiríssima Infância

Promove ações pelo desenvolvimento integral, da gestação aos três anos. Surgiu a partir dos avanços do Programa Primeiríssima Infância, que impulsionou a articulação entre diferentes setores da gestão pública, especialmente nas pastas da saúde, educação infantil e desenvolvimento social. O atendimento interdisciplinar aproxima profissionais da área de saúde, gestão, educação infantil e desenvolvimento social, com soluções testadas em mais de 40 municípios paulistas.

“As mudanças climáticas são uma emergência médica com efeitos sentidos pelos mais pobres”

A sessão de encerramento do Urban95 Convening Brasil recebeu gestores públicos e técnicos de diversas cidades para conhecer as iniciativas brasileiras de combate à poluição que já estão pensando a pauta do ar limpo para bebês e crianças. A edição de 2021 contou com dois dias de debates, 8 e 10 de setembro, integrando as atividades da agenda global da Rede Urban95, que acontecem nos dias 2 e 14 de setembro.

Com a intenção de ouvir aqueles que estão executando políticas e ações no território, o evento recebeu o presidente da Fundação de Ciência, Tecnologia e Inovação – Citinova da Prefeitura Municipal de Fortaleza, Luiz Alberto Saboia, Sonia Knauer e Fabiano Pimenta, Subsecretário de saúde de Belo Horizonte,  e a Dra Rita de Cássia Nogueira Lima, procuradora do Ministério Público do Acre, que compartilhou a experiência de formação da Rede Estadual de Monitoramento da Qualidade do Ar.

A diretora do Programa de Clima do WRI Brasil, Carolina Genin, abriu a mesa com um panorama sobre O Estado da Qualidade do Ar no Brasil, estudo que sistematizou o atual conhecimento que temos sobre o tema no Brasil, com seus desafios e prioridades. “Temos um problema, mas também temos soluções à mão. E nossa primeira recomendação é a criação de uma política nacional, sistêmica e mais robusta de qualidade do ar, que dê conta da complexidade do Brasil”, afirma Carolina.

Conduzido pela WRI junto à diversos parceiros, o projeto reuniu informações sobre as fontes de poluição do ar no Brasil, seus impactos e as formas de controle atualmente, e organizou 10 indicações claras para a tomada de decisão em prol do ar limpo pois. Em conjunto, indica um caminho a ser trilhado pelo país na direção de um ar mais limpo e saudável para bebês, crianças e todos nós.

São elas: o alinhamento aos padrões internacionais, a criação de políticas de incentivo para reduzir assimetrias locais; fortalecimento da ciência de dados e do sistema de monitoramento atmosférico nacional; o alinhamento de políticas nacionais de controle de poluentes atmosféricos; o fortalecimento de sinergias e compatibilização entre políticas de qualidade do ar; a promoção de pesquisas sobre a economia da qualidade do ar e sua interface com a desigualdade socioeconômica no Brasil; desenvolvimento de políticas regionais e nacionais para a gestão de queimadas e a promoção de formas mais equitativas de participação social  no tema, com poderes de decisão.

Ar limpo para crianças mudanças climnáticas

Felipe Cardoso/Urban95 Brasil

Ar limpo na prática: o que as cidades estão fazendo

Com mais de 5 milhões de deslocamentos diários, sendo 63% destes por transporte motorizado, a capital cearense vem investindo na transformação de suas ruas, calçadas e percursos urbanos, pensando na segurança e conforto de pedestres e ciclistas. Com 55% de seus estudantes afirmando que caminham até a escola, ruas seguras se tornaram uma prioridade da gestão. Luiz Alberto Sabóia apresentou a experiência de implementação de áreas de trânsito calmo em zonas de alta circulação de crianças, “devolvendo o protagonismo para os pedestres e requalificando os espaços da cidade”. “Ao se aproximarem de uma zona escolar, hoje as pessoas entendam que a prioridade ali é o pedestre, são as crianças”, completa.

O Projeto Cidade para as Pessoas, outra iniciativa local, alcançou a redução da velocidade média dos veículos na área em 50%, e a ideia de Fortaleza é replicar as áreas seguras ao redor de todas as escolas do município.

O subsecretario de promoção e vigilância em saúde de Belo Horizonte, Fabiano Geraldo Pereira Júnior, apresentou projetos desenvolvidos na cidade pela promoção da saúde respiratória, como o Programa Criança que Chia, que estabeleceu uma rede integrada de atenção à crianças e adolescentes com doenças respiratórias agudas e crônicas.

Sonia Knauer, técnica da Prefeitura de Belo Horizonte complementou a exposição com os avanços da cidade no combate à mudança do clima, que culminou no desenvolvimento de um Plano Municipal de Redução das Emissões de GEE, já em sua segunda revisão.

“A medida que as mudanças climáticas acontecem e os seres humanos avançam sobre as áreas selvagens, cinco novas doenças infecciosas surgem por ano, além aquelas provocadas pelas enchentes e ondas de calor. Sabemos que a redução das emissões está diretamente ligada à qualidade do ar. “As mudanças climáticas são uma emergência médica e seus efeitos são sentidos pelos mais pobres, por isso é tão importante fortalecer a participação social nesse tema. Para que as pessoas saibam o que está acontecendo”, defende Sonia

A experiência do estado do Acre no combate à poluição foi apresentada pela Procuradora do Ministério Público, Dra. Rita de Cássia Nogueira Lima, que acompanhou de perto o surgimento da Rede de Monitoamento da Qualidade do Ar no Acre. O estado vem capacitando gestores e servidores públicos quando a importância do ar limpo para todos, além de implementar tecnologias para apoiar a redução das emissões.

No encerramento do Urban95 Convening Brasil, Carolina Genin lembrou ao grupo que o papel da sociedade civil é justamente dar asas e conectar projetos que estão acontecendo em locais distantes, mas que possuem tecnologias inovadoras e de baixo custo, Como um canal de trocas, o evento propôs pontes entre cidades e suas soluções, que podem ser escaladas e replicadas.

“O fim da poluição deve ser a nova agenda nacional, como já foi em décadas anteriores o combate ao tabagismo e ao HIV”

Edição brasileira do Urban95 Convening 2021 discute caminhos para aprimorar a qualidade do ar para bebês e crianças pequenas com roda interdisciplinar debate

O primeiro dia do Urban95 Convening Brasil reuniu gestores, técnicos e especialistas de diferentes áreas para uma sessão de debate sobre a qualidade do ar e seus impactos sobre a primeira infância, especialmente a que vive hoje nas cidades brasileiras. Os participantes conheceram dados e estudos recentes sobre os efeitos de curto e longo prazo da poluição, hoje associada a mais óbitos do que o trânsito em nosso país.

Representantes das cidades da Rede Urban95 escutaram também sobre as especificidades dos bebês e crianças em seus primeiros anos de vida quando são atingidos por partículas de poluição e toxicidades no ar. Pensando na importância das lideranças locais e na necessidade de circulação e permanência dos pequenos nos espaços públicos, o monitoramento do ar, atividades de conscientização e a criação de zonas de proteção para a primeira infância foram algumas das ideias incentivadas ao longo do evento, que aconteceu nessa quarta-feira (08/09), de forma virtual. 

“Reunimos cidades que já estão olhando para a questão da qualidade do ar e do ambiente urbano para bebês e crianças pequenas em muitos campos, representados aqui da medicina à arquitetura. Acreditamos que todas as áreas do conhecimento se relacionam com esse tema e podem contribuir. Lembrando a chegada da COP 26, que acontece agora em novembro, a ideia é manter a pauta no ar, literalmente.” Assim a representante da Fundação Bernard van Leer no Brasil, Claudia Vidigal, deu as boas-vindas aos participantes do Urban95 Convening, destacando a interdisciplinaridade da mesa.

Felipe Cardoso/Urban95 Brasil

Saúde e desenvolvimento infantil no contato com a poluição

Trazendo um retrato da poluição do ar no Brasil e a sua relevância em bebês e crianças, a idealizadora do Instituto Saúde e Sustentabilidade, Dra. Evangelina Vormittag, fez um chamado para que todos possam se apropriar da gravidade de seus efeitos para a primeira infância, especialmente aqueles que têm poder decisório nas cidades.

“A primeira informação relevante é a magnitude de como a poluição pode afetar os bebês, ainda na barriga. Imaginávamos que um feto estivesse protegido da poluição do ambiente externo, aquela a que a mãe está exposta, mas já temos pesquisas com evidências de partículas no lado fetal da placenta, ou seja, houve transposição da poluição do ambiente. Não apenas o bebê pode receber partículas pela corrente sanguínea, mas há uma constatação nova e irrefutável de que a poluição pode levar à morte das crianças”, afirma a médica patologista.

As crianças estariam mais expostas à poluição do que os adultos, inclusive pela absorção da pele e o hábito de levar as mãos à boca. Além disso, seu desenvolvimento físico ainda não está completo, e pulmão por exemplo, só vai estar totalmente desenvolvido aos 6 anos de idade, período durante o que não contaria com todas as camadas de proteção no órgão, o deixando ainda mais exposto à contaminantes. Em contextos rurais, a exposição pode acontecer até mesmo dentro de casa, como no caso do fogão a lenha.

A Dra. Evangelina destaca ainda que já existem leis no Brasil que tratam o tema da poluição, mas que elas não são seguidas de forma rígida. “Apesar de existir a Lei Nacional de Inspeção Veicular ela não é executada nos estados e, mesmo em São Paulo onde existe uma lei específica para o monitoramento dos ônibus municipais, a regra nunca foi implementada. Eu, se fosse gestora, enfrentaria a questão da substituição do combustível do transporte como primeiro desafio!”, completa. A médica defendeu como caminho a construção de uma política nacional de qualidade do ar, que já está em trâmite no Congresso Nacional.

Presidente do Departamento Científico de Toxicologia e Saúde, da Sociedade Brasileira de Pediatria, o Dr. Carlos Augusto Mello da Silva abordou em sua participação no encontro os impactos mais imediatos da poluição na saúde de bebês e crianças, como mau desempenho em testes cognitivos, prejuízos ao desenvolvimento motor e até mesmo aumento de distúrbios neurocomportamentais e diabetes. Pesquisas indicam relação direta entre a qualidade do ar durante a gestação e efeitos sobre o desenvolvimento do sistema nervoso central e do sistema endócrino das crianças.

“Tivemos grandes avanços na questão da poluição indoor, no ambiente doméstico, pelo combate ao tabagismo no Brasil, que chegou a alcançar uma posição muito boa de abandono ao cigarro em comparação com muitos países, inclusive da Europa Ocidental. O saneamento público também avançou muito. Creio que a questão da poluição ainda não é a pauta da vez, mas pode se tornar, a depender do conjunto da sociedade. Precisamos trabalhar juntos nestas pautas, para que os gestores públicos se sensibilizem, como aconteceu com o tabagismo, o HIV e as campanhas de imunização”, afirma Carlos.

Por uma política do ar puro!

Sobre o aspecto legal da exposição de bebês e crianças à poluição, o advogado Danilo Farias falou sobre litigância climática e estratégias na defesa dos direitos para a primeira infância. O advogado do projeto Justiça Climática e Socioambiental, do Instituto Alana, mostrou caminhos para alcançarmos cidades com um ar mais respirável para as crianças e apresentou um histórico da legislação sobre poluição no Brasil.

A manhã se encerrou com um bate-papo entre a pesquisadora da Universidade de São Paulo, Luana Ferreira Vasconcelos e a consultora da Rede Urban95 Brasil, Ursula Troncoso. “Quanto menor o poluente, maior sua capacidade de penetrar no trato respiratório e causar danos à saúde, em curto e longo prazo”, explicou Luana sobre os efeitos nocivos da poluição do ar à saúde das crianças e seu desenvolvimento. 

Úrsula Troncoso apresentou algumas ideias de mitigação enfrentamento à poluição em escala local, como o monitoramento da qualidade do ar, campanhas de conscientização e a criação de zonas de proteção, lugares de convivência da primeira infância onde se proponha a redução de poluentes. A apresentação partiu de pesquisa realizada com apoio técnico da WRI, parceira de longa data da Fundação Bernard van Leer, que resultou no recém lançamento de uma cartilha sobre poluição do ar e a primeira infância.

O encerramento do evento se deu com as provocações do Coordenador de portfólio de transportes no Instituto Clima e Sociedade, Marcel Martin, que pontuou sobre a posição dos gestores municipais e seu papel na formulação de políticas públicas locais. “O ar não respeita limites administrativos, mas é nas cidades que acontecem estas emissões”, afirmou. Um convite à reflexão dos participantes sobre como as cidades podem se posicionar de forma integrada em relação a agenda do ar limpo.

O evento contou ainda com a facilitação gráfica do Coletivo Entrelinhas. Na sexta feira, 10/08, acontece o segundo dia da Urban95 Convening 2021 Brasil, e a programação completa pode ser conferida aqui. A manhã será dedicada a projetos e iniciativas brasileiras de sucesso no combate à poluição do ar.

Incluir: Entenda mais sobre Quais os problemas que a poluição do ar pode causar

 

Urban95 Convening Brasil discute qualidade do ar e primeira infância

O ar puro é um princípio essencial de cidades saudáveis, seguras e vibrantes, nas quais bebês e crianças pequenas possam se desenvolver plenamente. Por outro lado, estes grupos ficam mais próximos das fontes de poluição, como escapamentos de veículos, e consomem mais ar. Uma criança de 3 anos respira em média 2x mais oxigênio do que um adulto, tornando-as muito mais vulneráveis. Saiba mais sobre quais os problemas que a poluição do ar pode causar.

Qualidade do ar e primeira infância

Já sabemos que a qualidade do ar afeta de forma desigual os pequenos, e que a exposição a altos níveis de poluição antes do nascimento, e nos primeiros anos de vida, pode ter consequências perigosas para a vida toda. Com essa preocupação em mente, a Fundação Bernard van Leer convida para o Urban95 Convening Brasil, que acontece nos dias 8 e 10 de setembro, em sessões online das 10h às 12h.

As inscrições estão disponíveis gratuitamente.

Como um problema global, regional e local, soluções diferentes e integradas são necessárias para reverter a poluição que afeta nosso planeta, como mudanças na legislação, campanhas de mudança de comportamento e intervenções urbanas que amenizem seus efeitos. O evento propõe observar as evidências sobre o estado da qualidade do ar e sua conexão com os primeiros anos de vida, para que possamos pensar juntos em ideias e propostas garantam ar puro para bebês, crianças pequenas e seus cuidadores.

Para conhecer um pouco mais sobre o tema antes do evento, leia a publicação “Policy brief: A poluição do ar na Primeira Infância” .

Saiba mais sobre: Qualidade do ar e primeira infância

As cinco dimensões da primeira infância

Os primeiros anos de vida

Um momento único para investir no desenvolvimento das crianças

Em seus primeiros mil dias de vida, as crianças respondem mais rapidamente às interferências, estímulos e experiências do que em qualquer outro momento, fazendo deste período uma janela crucial de oportunidades para o desenvolvimento humano.

Da mesma forma, quando expostas de forma prolongada a experiências adversas na primeira infância, como negligência, violência, abuso ou disfunções familiares, o desenvolvimento infantil pode afetar de forma adversa suas funções superiores e, consequentemente, sua integração plena na sociedade quando adultos. 

As 5 dimensões do desenvolvimento infantil

O cuidado integral oferece oportunidades únicas para os bebês e as crianças pequenas

Para um desenvolvimento pleno de suas potencialidades, os bebês e crianças pequenas precisam de acesso à saúde, uma nutrição adequada e saudável, estímulos motores, sensoriais e um cuidado amoroso por parte dos seus cuidadores, os protegendo do estresse e diversas formas de violência.

O modelo de nutrição de cuidados, ou cuidados de criação, incluem componentes inter-relacionados de saúde, nutrição, proteção e segurança, aprendizagem precoce e cuidados responsivos. Essas 5 dimensões do desenvolvimento infantil apontam cuidados essenciais para o desenvolvimento pleno dos bebês e crianças pequenas, e constituem a base de uma vida feliz e saudável na vida adulta. 

Com o exercício dos cinco domínios, as crianças podem aproveitar todo o seu potencial de desenvolvimento, contando para isso com seus pais, cuidadores e toda a sociedade. Os cuidados com as dimensões do desenvolvimento podem ser  promovidos e incentivados pela gestão pública, oferecendo acesso à serviços, informações e intervenções que ajudam os pais e outros cuidadores a assegurar que as crianças cresçam saudáveis e protegidas de perigos.

  • Saúde

As condições de saúde de uma criança afetam diretamente seu desenvolvimento

A dimensão da saúde na primeira infância inclui também pais e cuidadores, sendo fundamental uma abordagem de saúde da família para garantir o acesso pleno à serviços e direitos. Sabemos, ainda, que quando cuidamos da saúde física e mental dos cuidadores aumentamos sua capacidade de atender as necessidades infantis.

Os serviços de saúde são importantes na prevenção de doenças e promoção do bem-estar integral, se iniciando ainda no pré-natal. O cuidado com as gestantes pode assegurar os nutrientes adequados durante a vida intrauterina, favorecendo o desenvolvimento cerebral, bem como a prevenção de doenças e o incentivo à amamentação 

  • Nutrição

A nutrição adequada começa ainda na gestação

Um ambiente ideal promove o desenvolvimento dos bebês e crianças ainda durante a gravidez, considerando que a saúde da mãe afeta diretamente o estado nutricional do feto. A desnutrição materna também pode acarretar baixo peso ao nascer e aumenta o risco de doenças crônicas na vida adulta. 

Após o nascimento, a nutrição dos cuidadores afeta inclusive a capacidade de oferecer cuidados adequados à criança, resultando em problemas como amamentação insuficiente, desnutrição proteico-calórica e carência de micronutrientes.

  • Cuidado responsivo

Apoiar o cuidador para atender as necessidades dos bebês e das crianças 

Violência, negligência e maus-tratos podem ter efeitos fortes e duradouros sobre a estrutura cerebral das crianças, afetando suas funções psicológicas, comportamentos de risco na vida adulta e desenvolvimento profissional e econômico. A criação de um ambiente seguro, amoroso e seguro reduz os riscos de violência, melhoram a interação entre pais e filhos e seu conhecimento sobre o desenvolvimento infantil.

Os cuidados responsivos são os mais próximos da criança, e se referem à capacidade de todos os cuidadores da criança (cuidadora de crianças), sejam pais, avós ou professores, a perceber e responder aos sinais desta criança de maneira oportuna, sem negligência nem hiper estimulação.

4) Segurança e proteção

Ambientes seguros para bebês, crianças e suas famílias

Perigos físicos, emocionais e riscos ambientais são ameaças para o desenvolvimento pleno e saudável dos bebês e crianças pequenas. No caso das grandes cidades, além da violência sistêmica a poluição é uma questão central e que afeta de forma desproporcional a primeira infância, especialmente aquelas em famílias vulneráveis.

As cidades devem garantir às crianças pequenas e suas famílias um acesso adequado à alimentação de qualidade, sendo um foco de destaque o cuidado com famílias em risco de insegurança alimentar. Além da obrigação constitucional em fornecer localmente os serviços básicos de infraestrutura, a garantia de que as famílias tenham acesso à água e esgoto tratados é condição fundamental para a segurança e proteção na primeira infância.

5) Aprendizagem inicial

Oportunidades para os bebês e as crianças pequenas têm de interagir com o mundo

Reconhecemos que cada interação, seja positiva ou negativa, contribui para o desenvolvimento cerebral das crianças e estabelece as bases para o seu desenvolvimento. Aqui podemos pensar em relações interpessoais e também com o ambiente, fundamental para que os bebês e crianças pequenas possam experimentar suas cidades, explorar o território e criar vínculos com o espaço urbano. 

As interações vividas durante os primeiros anos têm um impacto grande sobre o desenvolvimento integral das crianças e também são base para aprendizados posteriores. A formação neurológica e emocional deste período é marcante e pode influenciar o indivíduo por toda sua vida.

Espaços públicos e mobilidade para primeira infância

Em um dia comum, uma criança na primeira infância e seus cuidadores demandam diversos serviços e espaços da cidade, como creches, postos de saúde e praças. Experiências nas ruas da cidade e nos espaços públicos que elas oferecem são de extrema importância, mas acabam sendo escassas se o planejamento urbano não contar com um olhar voltado à primeira infância.  Continue reading

Cidades e infâncias: a influência do território no desenvolvimento infantil

Existem muitas razões para priorizar a primeira infância no planejamento urbano e no desenho de programas e serviços. Para começar, 83% das crianças brasileiras vivem em cidades, segundo dados do IBGE de 2015. Além disso, 2 em cada 5 crianças vivem na pobreza ou na extrema pobreza, como mostram dados do IBGE de 2019. Ou seja, a relação entre cidades e infâncias é uma realidade muitas vezes desigual e insustentável, e que precisa urgentemente ser reparada.

Um dos caminhos para isso é entender as necessidades da primeira infância e tomar decisões a partir delas. Para apoiar gestores e equipes técnicas das prefeituras nesta missão, reunimos uma série de referências sobre por que e como construir cidades a partir da perspectiva de bebês, crianças pequenas e de seus cuidadores.

Aqui, você vai encontrar os seguintes conteúdos sobre cidades e infâncias:

  • Seis razões para priorizar a primeira infância no município
  • O que é e como criar uma cidade cuidadora
  • Ideias para transformar espaços públicos
  • Cidades e Infâncias: webinar temático Urban95

Considere que este é um material de consulta, que pode ser lido, relido e compartilhado sempre que for necessário discutir, ou até mesmo justificar, a importância das cidades para oferecer um bom começo para as crianças.

Seis razões para priorizar a primeira infância no município

O Guia para elaboração do Plano Municipal pela Primeira Infância é um documento fundamental para inspirar e orientar a criação deste importante documento. Além de trazer diretrizes e roteiros, o texto apresenta seis razões para as crianças de até 6 anos serem a agenda prioritária do município:

1) Crianças têm direitos

Cuidado, educação, proteção, atenção à saúde, brincar, convívio familiar e comunitário. Essas são apenas algumas das condições básicas para as crianças sobreviverem e se realizarem na existência. São também direitos das crianças garantidos por lei.

Em primeiro lugar, a Constituição Federal Brasileira determina o atendimento de crianças e adolescentes pela família, pela sociedade e pelo Estado com absoluta prioridade. Já o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece a forma como os direitos devem ser atendidos. Por fim, o Marco Legal da Primeira Infância traz diretrizes para políticas públicas focadas em crianças de até 6 anos.

O Ministério Público (MP), a Defensoria Pública, os Tribunais de Justiça, os Conselhos de Direitos e Tutelares têm atuado para defender os direitos da criança. Em parceria com a Secretaria de Educação, por exemplo, esses órgãos podem garantir o acesso à creche. Neste sentido, a articulação intersetorial é necessária para promover a proteção integral de crianças e adolescentes.

Assista ao vídeo sobre marcos e leis com relação ao direito à cidade, produzido pelo CECIP Centro de Criação de Imagem Popular para o curso online MOB. PI – Participação Infantil e Políticas Públicas para a Cidade:

2) O cuidado integral na infância é uma demanda social

É dever da família, da sociedade e do Estado proteger a criança e cuidar dela para que tenha vida plena e desenvolva seu potencial humano. Ou seja, as famílias não devem cuidar sozinhas de seus filhos e filhas. E nem podem, já que precisam trabalhar fora de casa.

Está na Constituição Federal, no artigo 7o, inciso XXV, que é direito dos trabalhadores urbanos e rurais a “assistência gratuita aos filhos e dependentes desde o nascimento até cinco anos de idade em creches e pré-escolas”. Ainda que muitas vezes a responsabilidade pela criança recaia sobre a mulher, o direito é da família. E o Estado precisa estar presente para atender a esta demanda social.

3) O argumento da educação

Pesquisas mostram que uma educação infantil de qualidade aumenta as chances da criança aprender mais no ensino fundamental e médio. Isso porque as primeiras experiências formam a base para que todas as demais aconteçam.

E não estamos falando apenas de conteúdo. Tanto que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) define seis direitos de aprendizagem na educação infantil: conviver, expressar, brincar, participar, explorar e se conhecer.

4) O argumento da justiça social

Todas as crianças nascem com imenso potencial, mas algumas têm mais chances do que outras para se desenvolver plenamente. Para quebrar o círculo da pobreza, é preciso apoiar e fortalecer as competências das famílias em cuidar e educar as crianças pequenas. Assim,  garantimos um bom começo de vida para todas.

É dever de toda a sociedade evitar que o meio se torne fator de desigualdade no desenvolvimento das crianças. O cuidado integral da primeira infância, por meio de políticas de equidade, é a estratégia mais eficaz para promover a igualdade desde cedo.

Assista ao vídeo sobre as seis razões para os governos colocarem as crianças na agenda pública, produzido pela Rede Nacional Primeira Infância:

5) O argumento da economia

Investir na educação infantil e em programas para a primeira infância não só traz um alto retorno, como gera economia de recursos. E muitos estudos já comprovaram este benefício. O mais conhecido foi realizado por James Heckman, Prêmio Nobel de Economia em 2000.

Segundo seus cálculos, o valor aplicado na educação das crianças evitou gastos entre sete e dez vezes maiores em programas de reeducação, correção e assistência social de adolescentes e adultos do mesmo nível socioeconômico que não tiveram a oportunidade de  frequentar aquele programa. Segundo ele, investir na primeira infância pode mudar a realidade de um país.

Estudos brasileiros também chegaram a conclusões semelhantes. Ricardo Barros e Rosane Mendonça, por exemplo, encontraram uma taxa de retorno ainda maior do que a de Heckman: entre 12,5% e 15%. Além de ser um dever do poder público, também é estratégico aplicar recursos financeiros na atenção à primeira infância.

6) O argumento das ciências

A neurociência vem comprovando que os primeiros anos de vida são os melhores para desenvolver estruturas de pensamento, de emoções, de interações. São as chamadas “janelas  de oportunidades”, que precisam ser aproveitadas no tempo certo. Mais tarde as oportunidades podem não ser tão eficientes.

Os conhecimentos produzidos pela pedagogia, psicologia e outros campos sobre a primeira infância são confirmados, aprofundados e ganham precisão com as análises feitas pela ciência do cérebro. Esses estudos mostram que a primeira infância é a mais sensível e a que mais facilmente se estrutura ou se desestrutura.

Isso significa que as marcas das experiências (sobretudo, as de caráter emocional) são mais profundas e duradouras do que em outros períodos da vida. Isso não significa que se pode estigmatizar uma pessoa por ter sofrido uma lesão em seu cérebro, ou vivenciado experiências que a levaram a atitudes antissociais. Apenas reforça a importância do cuidado integral das crianças nos primeiros anos de vida.

Agora que já entendemos porque a primeira infância é tão importante, vamos trazer os conceitos para a prática? Assim, fica mais fácil entender como se dá a relação entre cidades e infâncias nos territórios.

O que é e como criar uma cidade cuidadora

Acolher a presença das crianças nos espaços urbanos é uma forma de cuidar da infância. Para a arquiteta e urbanista Irene Quintáns, essa é a definição de uma “cidade cuidadora”:

“A palavra cuidar vem do latim cogitare, pensar. Uma cidade que cuida é aquela que destina tempo, energia e recursos para pensar: pensar em como incluir em suas ações as complexas e variadas necessidades da cidadania e, especialmente, daqueles que mais cuidados demandam.”

– Irene Quintáns, no texto Cidade para crianças, urbanismo e mobilidade urbana, escrito para o curso MOB.PI – Participação Infantil e Políticas Públicas, produzido pelo CECIP.

Então, a cidade que cuida das crianças é aquela que garante condições de vida saudáveis, seguras e públicas. A cidade saudável proporciona bem-estar físico, emocional e cognitivo. Ela também é segura quando reafirma o espaço da criança nos espaços, e a interação com seu entorno. E é pública ao considerar a criança como parte imprescindível do coletivo.

E como isso se traduz nos territórios? Existem diversos caminhos desenhados nos Guias para o desenvolvimento de bairros amigáveis à Primeira Infância, desenvolvidos pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) em parceria com a Fundação Bernard van Leer. Na primeira de quatro publicações, são apresentados quatro motivos para criar políticas públicas com foco na primeira infância:

1) Sensação de segurança: da criança e de seu cuidador

Elementos de estresse na cidade, como veículos em alta velocidade e violência, limitam o acesso e a mobilidade das famílias. Tanto que muitas vezes vemos parques e espaços abertos sendo mais ocupados por homens e jovens, e menos por mulheres e crianças mais novas.

Essa sensação de insegurança também gera um estado de alerta e hipervigilância, que leva à ansiedade. Quando sustentada por um certo período de tempo, essa ansiedade aumenta o hormônio cortisol no corpo. É o chamado estresse tóxico, que pode diminuir a capacidade das crianças de explorar e aprender.

2) Ambientes de cooperação

Os eventos de vida mais significativos para crianças nos primeiros anos de vida são atividades comuns que acontecem diária e repetidamente. Por exemplo, com o que e como eles são alimentados, a higiene diária, a qualidade do ar que respiram e a água que bebem, o que, como e com quem brincam.

Interações responsivas, divertidas, significativas e tranquilas com seus cuidadores são oportunidades para explorar suas capacidades e seus arredores. Isso garante o desenvolvimento de uma função cognitiva aprimorada, uma sensação de segurança em relacionamentos futuros e um senso de domínio em relação ao ambiente físico.

Assista ao vídeo Caminhando com Tim Tim, produzido por Genifer Gerhardt, que mostra como a relação de uma criança com a cidade é rica em trocas, afetos e aprendizados:

3) Frequentar espaços ao ar livre regularmente

Para as crianças de até seis anos, tudo é uma oportunidade para aprender. Principalmente a partir do uso do corpo para caminhar, equilibrar-se, correr, pular, escalar, rolar ou cair. Por isso, é preciso integrar a brincadeira ao ar livre no fluxo da vida urbana, e não apenas como um evento especial, como um passeio planejado a um parque.

Em nome da segurança, muitas vezes as cidades impõem restrições máximas às crianças pequenas, como limites de circulação, espaços a ocupar e altura de brinquedos, por exemplo. O resultado são experiências e espaços tediosos e, portanto, subutilizados. Existem muitas organizações em todo o mundo que estão redesenhando parquinhos para que as crianças se sintam mais atraídas e se tornem mais aventureiras.

4) Crianças precisam do verde

Pesquisas já mostraram diversas vezes que espaços verdes reduzem o estresse em crianças e adultos e melhoram sua saúde mental. Além disso, árvores e vegetação urbanas são elementos que ajudam a diminuir o comportamento agressivo nas cidades, e foram associados à redução do crime. Essas e outras informações podem ser encontradas no Guia global de desenho de ruas, da NACTO (National Association of City Transportation Officials).

O contato com a natureza, ao lado de seus cuidadores, estabelece calma e um ritmo lento de estímulo que não estressa os sentidos dos bebês. Para as crianças entre dois e seis anos, o contato com a natureza aprimora seu senso de compreensão do próprio corpo e cria um senso de capacidade e autoconfiança.

Ambientes com variedade de texturas para explorar – árvores para escalar, folhas secas para pisar, pedras para construir estruturas imaginárias – são os elementos mais benéficos para o cérebro em crescimento, tanto estrutural quanto emocionalmente.

Cidades e infâncias: webinar temático Urban95

O que é uma cidade que prioriza a primeira infância, afinal? E como isso acontece, na prática? Este foi o tema do “Webinar Cidades e Infâncias: a influência do território no desenvolvimento infantil”, realizado pelo CECIP Centro de Criação de Imagem Popular. A instituição está responsável pela articulação com as 11 novas cidades Urban95.

Para início de conversa, a coordenadora de projeto Isabella Gregory falou dos avanços de cada cidade. Em seguida, foi a vez da representante da Fundação Bernard van Leer no Brasil, Claudia Vidigal, falar sobre porque investir na primeira infância.

Depois, a arquiteta e urbanista Ursula Troncoso, que é consultora Urban95, abordou os problemas e oportunidades das cidades para as crianças de até 6 anos, com apresentação de casos de sucesso no Brasil.

Por fim, os participantes ainda se reuniram em grupos para pensar em ações práticas e intersetoriais com foco em crianças pequenas e seus cuidadores. O webinar Cidades e Infâncias foi o primeiro de uma série de encontros formativos para os novos integrantes da rede Urban95.

Assista ao vídeo do Webinar Cidades e Infâncias: a influência do território no desenvolvimento infantil, realizado pelo CECIP para a Urban95:

Ideias para transformar espaços públicos: cidades e infâncias na prática

A Urban95 disponibiliza uma série de materiais de apoio com boas práticas e ideias para incluir a primeira infância no planejamento urbano. Um exemplo é o Guia de pontos de ônibus que acolhem a primeira infância, que traz ideias simples de intervenções para garantir segurança, conforto, interação social e inspiração para crianças, cuidadores e todos os cidadãos.

>> Conheça a biblioteca da Rede Urban95 Brasil

Para apoiar de forma mais concreta, a Urban95 criou a iniciativa Pé de infância, que oferece elementos e propostas de intervenções lúdicas em espaços públicos. O projeto foi desenhado a partir de premissas científicas, cartografias afetivas das comunidades e participação de gestores municipais e especialistas em primeira infância.

Quer levar o Pé de infância para a sua cidade? Então entre em contato com a equipe do CECIP/Urban95!

Quando o assunto é cidades e infâncias, existem muitas referências e inspirações como estas que apresentamos. Continue acompanhando os canais e redes sociais da Urban95 para conhecer outras ações com foco em bebês, crianças pequenas e seus cuidadores.

Saiba mais sobre o que é Desenvolvimento Integral da criança

Parques naturalizados para Primeira Infância

O que são parques naturalizados?

Por um brincar mais natural

Parques naturalizados são espaços ao ar livre e multifuncionais, desenvolvidos a partir de elementos naturais e com múltiplas possibilidades de interação, exploração e criação. Com a proposta de utilizar elementos da natureza, como troncos, galhos e a própria topografia dos terrenos para criar espaços de convívio, lazer e brincadeiras, os parques naturalizados representam um movimento mundial e trazem um conceito lúdico e educativo para as cidades.

Também são uma forma de promover o brincar livre, as interações com vizinhos e o vínculo com o espaço público. O contato da comunidade com a natureza traz benefícios para todas as idades, criando novas áreas verdes, parques e praças no ambiente urbano. Parques naturalizados oferecem sombra e locais de descanso, podem ser fonte de alimento e oferecem aos adultos um caminho de volta à própria infância.

Natureza e Cidades Sustentáveis

Como as cidades podem apoiar o desenvolvimento integral na infância?

Pesquisas comprovam que o contato com a natureza contribui para o desenvolvimento integral
da criança. Os brinquedos pensados a partir de elementos naturais são espaços mais dinâmicos, incentivam a criatividade e a imaginação, experiências sensoriais e motoras mais desafiadoras para os bebês e crianças pequenas.

O contato com a natureza é um elemento essencial para a saúde física, mental e emocional na infância, apoia a construção de vínculos afetivos para que as crianças aprendam a respeitar todas as formas de vida e contribui para o desemparedamento da criança, inclusive nas escolas. Reconhecemos que a cidade pode ser um território lúdico e educativo, para além dos muros escolares.

Para benefício da gestão pública, os parques naturalizados podem ser implantados a um custo mais baixo, uma vez que reaproveitam materiais já existentes, como troncos e resíduos da poda urbana. Mas são também um caminho para construir cidades mais verdes e vivas, com espaços públicos seguros, acessíveis e amigáveis para as crianças.

Natureza e primeira infância

Criando espaços verdes perto dos bebês, crianças pequenas e suas famílias

O contato com a natureza promove a saúde e o bem-estar de toda a comunidade, das gestantes e bebês aos mais idosos. Pesquisadores são categóricos em afirmar que brincadeiras ao ar livre e o contato com a natureza trazem inúmeros benefícios para o desenvolvimento integral das crianças, especialmente aqueles que vivem em centros urbanos.

Os parques naturalizados são uma estratégia simples, barata e efetiva para promover o contato com a natureza nas cidades, bem como uma forma de promover o contato cotidiano entre as crianças e os espaços abertos. Uma dessas estratégias consiste em transformar os espaços de brincar frequentados por crianças e famílias, como os parquinhos públicos, praças e pátios escolares em ambientes mais naturais, desafiadores e ricos em oportunidades de interação, tanto entre as pessoas quanto com a natureza.

Essa estratégia também inclui a criação de parques naturalizados em áreas abandonadas ou vazias, mesmo que seu uso seja temporário. Estes microparques, ou “parques de bolso”, podem ser implantados rapidamente e com baixo custo, podendo ganhar escala nos municípios e proximidade com os bairros.