O que Medellín ensina sobre cidades que cuidam
Representantes de municípios e parceiros da Rede Urban95 estiveram na cidade colombiana em busca de referências para políticas de primeira infância. Veja os principais aprendizados da visita técnicaMedellín, na Colômbia, já foi considerada a cidade mais violenta do mundo, mas hoje é referência internacional em inovação urbana. Ao longo de três décadas, a cidade colombiana se reinventou, construindo um modelo integrado de gestão que articula urbanismo social, políticas públicas para a primeira infância e combate estrutural às desigualdades. Essa transformação atrai o olhar de gestores públicos que buscam construir cidades aliadas do desenvolvimento integral de crianças de 0 a 6 anos e do bem-estar de cuidadores.
Para conhecer de perto esse exemplo, lideranças de cidades brasileiras e parceiros técnicos da Rede Urban95 desembarcaram na capital da província de Antioquia, entre os dias 2 e 5 de junho, com uma missão: observar o município pela perspectiva da primeira infância, do cuidado, da mobilidade cotidiana, do brincar, da segurança e dos vínculos que tornam os espaços urbanos mais acolhedores, e identificar o que pode ser adaptado ao Brasil.
A visita técnica foi organizada pela Fundação Van Leer em parceria com a Corporación Oficina de Resiliência de Medellín. Participaram representantes das cidades de Crato (CE), Vitória (ES), Estância Velha (RS), Mogi das Cruzes (SP), São Vicente (SP), Novo Hamburgo (RS), Recife (PE), Fortaleza (CE), Maringá (PR), Rio de Janeiro (RJ), Guarujá (SP) e São José dos Campos (SP); parceiros técnicos do CECIP, Estúdio +1, Instituto EcoVida, Pacto, Ateliê Navio e Vianna e Moura Construtora, além de representantes do Ministério da Justiça, Universidade Federal da Bahia (UFBA), Câmara Municipal de São Paulo (SP) e da própria FVL. O grupo foi guiado por Santiago Uribe e Jean-Edouard Tromme, do Escritório de Resiliência de Medellín.
Confira a seguir os principais destaques que chamaram a atenção da comitiva e que trazem lições valiosas para as cidades brasileiras.
Princípios
A visita evidenciou um conjunto de princípios que dão coerência ao modelo de Medellín e a transformam em referência de inovação urbana e cuidado com as pessoas. Entre eles:
- Cultura cidadã: a cidade investe em comunicação e diálogo constante para que as pessoas se enxerguem como cidadãs e entendam que o que é público, afinal, também é seu e é uma responsabilidade coletiva. A comunicação é sempre feita no plural, convocando o coletivo e reforçando o pertencimento.
- Proximidade: os serviços são agrupados em conjuntos de equipamentos pensados para que as pessoas encontrem o que precisam perto de onde moram.
- Acessibilidade física: a cidade investiu pesado para integrar seus territórios com diferentes modais de transporte.
- Acessibilidade financeira: a maioria dos equipamentos públicos é de livre acesso. A população não paga para entrar nem para utilizar os serviços.
- Porosidade: a infraestrutura urbana é desenhada para que o dentro e o fora se comuniquem. Muros, por exemplo, quando existem, costumam ser vazados, criando a barreira física mas permitindo a conexão visual.
Mobilidade urbana
Medellín é uma cidade de montanhas. Vencer as distâncias verticais sempre foi um dos maiores desafios para quem vive nas periferias. Para isso, o município desenvolveu uma rede de transporte público diversificada, composta por metrô, trem, ônibus e pelo MetroCable, os famosos teleféricos, que são um dos pilares da transformação social de Medellín.
Além dos grandes modais, a cidade também cuida do trajeto mais delicado: o percurso de casa até a estação. Nos bairros, algumas vias que conduzem às estações de metrô são sinalizadas como Corredores Seguros. A lógica é estimular que as pessoas utilizem as mesmas rotas para acessar o transporte público de massa, concentrando o fluxo de pedestres – porque quanto mais gente circula, mais segura a via se torna.
Projeto Urbano Integral (PUI)
Assim como os teleféricos, os Projetos Urbanos Integrais (PUIs) constituem outro pilar da transformação social promovida por Medellín. Os PUIs são estratégias de urbanismo social nas quais o design e o planejamento urbano atuam como meios para a participação e o empoderamento dos territórios.
O primeiro PUI foi iniciado em 2004, impulsionado pela chegada do teleférico. A ideia era aproveitar o impacto econômico e social da nova forma de mobilidade para integrar territórios marginalizados à cidade formal.
Ao trabalharem com a comunidade na concepção e na construção de novos espaços, a cidade integrou a infraestrutura de mobilidade a funções cívicas, comerciais e institucionais. O projeto demonstrou ser possível aliar obras de infraestrutura de grande escala à sensibilidade social.
O sucesso do primeiro PUI fez com que a estratégia fosse expandida para outras áreas vulneráveis, consolidando-se como um modelo de regeneração urbana no qual o planejamento participativo e a integração de serviços são ferramentas essenciais para a recuperação do tecido social da cidade.
Rede de bibliotecas
O primeiro território a receber um PUI foi a comuna de Santo Domingo, onde o grupo visitou a biblioteca local. Com sua pluralidade de serviços, ela é o coração dessa transformação.
Medellín tem uma extensa rede de bibliotecas que funcionam como centros de convivência e cultura. Cada unidade oferece programação para todas as idades, com mínimo de três atividades diárias, e funciona todos os dias. Todas contam com uma “Sala Mi Barrio”, na qual se narra a história do território onde o equipamento está inserido, geralmente locais que antes tinham altos índices de violência, tráfico e mortalidade. Espaços como auditórios, salas e teatros são abertos e qualquer cidadão pode reservá-los e utilizá-los.
A estrutura institucional também chama a atenção. A cidade conta com uma Subsecretaria de Biblioteca, Leitura e Patrimônio e um Plano Diretor de Serviços de Biblioteca, que orienta toda a rede. Além das unidades fixas, há programas anuais paralelos, como a Parada da Leitura, a Parada Juvenil e a Festa Popular do Livro.
Bom Começo
Criado há mais de 20 anos, o Buen Comienzo (Bom Começo) é uma política pública intersetorial de atenção integral a crianças de 0 a 6 anos e suas famílias. A iniciativa contempla necessidades essenciais, como saúde, moradia e assistência social, e aspectos fundamentais para o desenvolvimento dos pequenos, como educação, esporte e lazer. Além disso, investe intensamente em mobilização social, buscando a corresponsabilidade da sociedade no cuidado com a primeira infância.
O Bom Começo nasceu como programa em 2004, tornou-se política pública em 2011 e, em 2020, alcançou status de Unidade Administrativa Independente, o que lhe conferiu autonomia financeira e orçamento próprio. Vinculado diretamente ao Gabinete do Prefeito, não está subordinado à Secretaria de Educação, embora dialogue com ela e com todas as demais pastas municipais.
O Bom Começo se desdobra em várias frentes complementares às construções de creches:
- Modalidade Familiar: voltada para gestantes e crianças de 0 a 3 anos.
- Nutrir para Sanar, Sanar para Nutrir: focado no cuidado de crianças com desnutrição aguda, com complemento alimentar desenvolvido em parceria com uma universidade.
- Buen Comienzo 365: garante distribuição de comida também durante as férias escolares.
- Buen Comienzo Sin Barreras: atende famílias sem documentos, imigrantes e crianças com deficiência, articulando as redes necessárias para sua inclusão.
Além disso, o programa investe na formação contínua de seus profissionais e promove eventos anuais de grande porte, como o Congresso Internacional e o Festival Bom Começo. Desde 2011, mantém a Rede Universitária Buen Comienzo, uma parceria com instituições de ensino superior que fortalece a base técnica e científica das ações.
UVAs e Círculos de Cuidado
As Unidades de Vida Articulada (UVAs) são equipamentos públicos espalhados por diferentes regiões da cidade que reúnem uma ampla gama de serviços que vão além do convencional, como círculos de cuidado, atendimento psicológico e jurídico, terapias alternativas como massoterapia e aromaterapia, entre outros. Cada UVA foi desenhada em diálogo com a comunidade local, que ajudou a definir quais serviços seriam ali instalados. Todo esse trabalho acontece em parceria com a Secretaria de Mulheres.
A proposta das UVAs é agir em duas frentes simultâneas: transformação cultural e transformação física. Comunidades que ainda não contam com uma UVA possuem um centro de cuidado ou uma gestora de cuidado – profissional que atua como ponte entre a comunidade e os serviços públicos, garantindo que o acolhimento chegue a todos os cantos.
Outros equipamentos e serviços
Lavanderia Comunitária
A Lavanderia Comunitária da UVA de La Alegría funciona há três meses e é a única da cidade até o momento. Mulheres de famílias com maior sobrecarga de trabalho de cuidado são identificadas por outros serviços da prefeitura e selecionadas para utilizar o espaço. Cada uma pode ir até duas vezes por semana e lavar até 10 quilos de roupa por vez, deixando as peças e as recebendo de volta lavadas, secas e dobradas cerca de duas horas depois. Durante esse período, as usuárias podem participar das atividades da UVA e do Círculo de Cuidado, como rodas de conversa e oficinas.
Ludotekas
A rede de ludotecas de Medellín é composta por 66 espaços instalados em bibliotecas, parques e equipamentos públicos. Com mobiliário desenhado especificamente para a primeira infância e grande variedade de brinquedos e estímulos à disposição, cada unidade conta com dois educadores e funciona de terça a domingo, oferecendo atividades que mesclam brincadeiras direcionadas (mediadas pelos educadores) e brincar livre. As ludotekas são geridas pelo Instituto de Esportes e Recreação de Medellín.
O acesso é livre e flexível: escolas e grupos podem agendar horários, mas o uso espontâneo é sempre bem-vindo. Um princípio central é a não exclusão: mesmo durante visitas agendadas, crianças que chegam sem aviso são acolhidas e integradas às atividades.
MOVA
O MOVA é um Centro de Inovação para Professores, um espaço de uso livre dedicado à experimentação docente e ao aprendizado entre pares. Gerido pela Secretaria de Educação, por meio da Subsecretaria de Serviços Educativos, o centro funciona como um laboratório vivo onde os educadores podem testar novas abordagens, trocar experiências e construir conhecimento coletivamente. Uma das iniciativas é a revista do MOVA, que reúne descobertas e pesquisas realizadas pelos professores.
Escuchaderos
Os “Escuchaderos” são clínicas públicas e gratuitas para atendimento psicológico, instaladas em estações de metrô e outros equipamentos municipais. Ao todo, são 161 unidades espalhadas pela cidade.
Qualquer cidadão pode usar o serviço sem agendamento: basta chegar e esperar a vez, se houver fila. A ideia é desburocratizar o acesso à escuta qualificada, levando o acolhimento psicológico para os espaços que as pessoas já frequentam naturalmente no dia a dia.
Casas de Justiça
Equipamentos territoriais que concentram, em um mesmo local, serviços de orientação jurídica, proteção social, mediação de conflitos e apoio psicossocial, aproximando o sistema de justiça das comunidades e fortalecendo as redes de cuidado nas periferias.
A proposta nasceu de uma constatação dura: estudos locais revelaram que muitos homicídios em Medellín não estavam ligados ao crime organizado, mas a conflitos cotidianos não resolvidos, como desentendimentos entre vizinhos, disputas familiares e problemas de convivência que, na ausência de canais de mediação, escalavam para situações de violência extrema.
Nas Casas de Justiça, o atendimento à primeira infância é prioritário, e o acesso da população à justiça formal e informal foi facilitado, especialmente nos territórios mais vulneráveis, oferecendo uma porta de entrada para resolver pequenos conflitos antes que eles se tornem grandes tragédias.
Principais aprendizados
O que a comitiva da Rede Urban95 viu em Medellín foram equipamentos abertos à comunidade, espaços que integram interior e exterior sem barreiras, qualidade material nos espaços públicos. Viu-se uma rede de mobilidade que conecta territórios antes isolados, e iniciativas de cuidado em diferentes equipamentos.
Mas o que torna tudo isso possível? Diálogo, intersetorialidade e continuidade.
- O ponto de partida é o diálogo e a participação social. Nenhuma intervenção acontece sem a escuta ativa da população. E dessa escuta, a cidade aprendeu a ter disposição para experimentar soluções.
- Outro pilar é a intersetorialidade. Todos os trabalhadores, incluindo equipes de obra, estão comprometidos com o discurso e com a missão de cada equipamento.
- A continuidade: os projetos da cidade atravessam gestões sem serem descontinuados, mesmo sob governos de partidos opostos. Cada novo gestor tenta melhorar o trabalho que estava sendo feito, em vez de descontinuá-lo, pois as políticas já foram apropriadas pela população.
Medellín se apresenta como uma cidade que aprendeu a se tratar como um organismo vivo, onde cada política, equipamento e palavra escolhida estão conectados a um propósito prático: o cuidado com as pessoas, especialmente com os bebês e crianças pequenas.