Logo Urban 95 Urban 95

Notícias e artigos
Notícia Governança e sustentabilidade
28.05.2026

Projeto de cidade educadora é o que faz a primeira infância virar prioridade

No webinar da Urban95, Fernando Abrucio defende que, para serem eficazes e duradouras, políticas de primeira infância precisam ser parte de um projeto maior de cidade que enxerga a criança de modo integral

O que, afinal, faz a diferença para que políticas de primeira infância avancem nas cidades? E como fortalecê-las para que se tornem de fato uma prioridade política da gestão municipal? Essas foram as perguntas centrais do segundo webinar promovido pela Rede Urban95 em 2026, que trouxe como convidado especial o professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Fernando Abrucio. Com longa trajetória no estudo de políticas educacionais e gestão pública, o pesquisador apresentou às cidades da Rede estratégias para posicionar a primeira infância no centro das decisões.

Fernando Abrucio é doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP), colunista do Valor Econômico, comentarista da GloboNews e coordenador do Centro de Estudos de Administração Pública e Governo (Ceapg) da FGV. Realizou consultorias para o Ministério da Educação (MEC), para redes estaduais e municipais de educação, para organismos internacionais e para países da América Latina e África.

A gravação completa do webinar está disponível no canal da Urban95 no YouTube. Assista.

A criança no centro da cidade

“O que realmente faz diferença em políticas públicas locais?” Ao abrir o webinar com essa pergunta, Abrucio respondeu que tudo começa com um projeto maior: o de uma cidade educadora para as crianças. Uma cidade que, segundo ele, enxerga a criança de forma integral, junto com sua família e inserida em seu território.

Construir essa política sistêmica, colaborativa e duradoura, explicou o professor, exige que os municípios conciliem ações, como:

  • Definir um sentido claro para a política, com objetivos, diagnósticos e prognósticos bem definidos;
  • Profissionalizar e democratizar a gestão pública;
  • Ter visão sistêmica e intertemporal (de longo prazo);
  • Aprender com Estados e outras cidades;
  • Institucionalizar uma governança colaborativa e integradora;
  • Construir ativamente a agenda da primeira infância e formar coalizões;
  • Ter lideranças políticas comprometidas.

Estratégias para fortalecer a cidade educadora

Em seguida, o professor elencou alguns caminhos concretos para fortalecer as políticas em prol de uma cidade educadora para as crianças:

  • Governança colaborativa

Integrar governo, sociedade civil, famílias e demais atores desde a formulação até a implementação das ações é decisivo. “É na implementação que se tira a prova dos nove da governança”, acrescentou Abrucio, pontuando que é na prática que as cidades percebem como criar canais de governança de acordo com seus contextos locais.

  • Parcerias intergovernamentais

Segundo o professor, quando Estados e municípios se unem, a política de primeira infância se potencializa. Essa parceria federativa fortalece a capacidade dos municípios. Abrucio também destacou a importância de as cidades se unirem entre si, especialmente as que compartilham desafios semelhantes. “Quando as cidades conversam, trocam experiências e disseminam boas práticas aprendendo com quem está mais próximo, o salto é muito maior.”

  • Intersetorialidade

Criar espaços de decisão e de formação conjunta entre diferentes secretarias para ampliar o leque de políticas. O professor destacou a importância de fomentar o diálogo entre os profissionais que atuam na ponta, lidando diretamente com as crianças e famílias. Quando esses profissionais conversam entre si, cria-se uma identidade compartilhada em torno da pauta da primeira infância, e eles passam a assumir o compromisso com a agenda. “Nós precisamos fazer os profissionais acreditarem que fazem a diferença”, enfatizou.

  • Articulações extragovernamentais

Envolver órgãos de controle, como tribunais de contas e o Ministério Público, o poder legislativo (Câmaras de Vereadores) e organizações da sociedade civil, como universidades e movimentos comunitários, é outro ponto essencial para fortalecer a política de primeira infância nas cidades.

  • Profissionalização

Profissionalizar é valorizar todos os profissionais que atuam na política de primeira infância, em todos os níveis, e isso exige uma formação integradora em torno do tema, que conecta diferentes áreas e respeita os saberes que nascem da prática cotidiana. O aprendizado contínuo é o pilar central da profissionalização.

  • Informação e engajamento

Realizar ações sistemáticas de informação, integração e engajamento das famílias e comunidades. Informar as famílias sobre a importância da primeira infância é um passo essencial para que a política de fato se consolide.

  • Criação de uma narrativa

Criar uma narrativa própria para a mobilização política e social em prol da primeira infância gera continuidade, identidade, pertencimento e compromisso. Sem contar uma história compartilhada, que explique por que a cidade escolheu priorizar suas crianças, a política não se sustenta.

  • Construção de um projeto

Definir as áreas em que a política atuará e quais serão suas articulações (educação, saúde, assistência, direitos humanos, política urbana, esporte, cultura) é essencial. Segundo o professor, isso varia conforme as potencialidades de cada cidade.

  • Triangulação

Durante a construção do projeto de uma cidade educadora para as crianças, é preciso articular o que Abrucio considera o triângulo da política de primeira infância: crianças; famílias e comunidades; e poder público. “Fazemos políticas públicas melhores quanto mais as famílias estão informadas e integradas”, frisou.

fernando-abrucio-webinar
Webinar com Fernando Abrucio

Confira os slides da apresentação

Prioridade que se sustenta

Transformar a política de primeira infância em prioridade exige, acima de tudo, um projeto consistente de cidade que integra governo, sociedade, profissionais e famílias em torno do desenvolvimento integral dos pequenos. Esse é o fio condutor que evita a fragmentação e a descontinuidade das políticas públicas. Como resumiu o professor: “Tem que estar claro que a cidade vê a criança de forma integral.”