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13.04.2026

Lições de Medellín para gestores públicos

Como a cidade colombiana reverteu seu quadro social com ações integradas entre poder público e população e o papel da primeira infância nessa transformação

Durante as décadas de 1980 e 1990, Medellín, na Colômbia, foi considerada a cidade mais violenta e perigosa do mundo, com taxas de homicídio superiores a 390 homicídios por 100 mil habitantes resultantes do tráfico de drogas, da ausência de políticas públicas e de vulnerabilidades sociais. Hoje, esse índice caiu para cerca de 15 homicídios por cada 100 mil habitantes, e Medellín virou referência mundial em inovação urbana.

O que aconteceu no meio do caminho e o que as cidades brasileiras podem aprender com essa experiência? Investimento em urbanismo social, infraestrutura e educação são algumas das respostas.

Entre os pilares dessa transformação estão os Projetos Urbanos Integrados (PUIs), uma estratégia de intervenções físicas para criação de espaços públicos de qualidade, habitação social e projetos de recuperação ambiental, onde a população participa antes, durante e depois das obras. Outro marco é o Metrocable, sistema de teleféricos integrado ao metrô que levou mobilidade a bairros periféricos e isolados nas encostas. Viagens que chegavam a durar até duas horas passaram a ser feitas em apenas 15 minutos, o que ajudou a fortalecer o sentimento de pertencimento à cidade.

O Metrocable é exemplo de como Medellín aprendeu a escutar suas periferias e transformar territórios com urbanismo social. Crédito: Prefeitura de Medellín

Quem conta essa história é Santiago Uribe, diretor do Escritório de Resiliência de Medellín. Em palestra realizada durante o Encontro Nacional Urban95 2026, em Teresina (PI), ele falou sobre os princípios, acertos e erros que guiaram essa transformação e como escutar as crianças foi essencial no processo.

A cidade são as pessoas

De acordo com Santiago, a virada começou quando Medellín passou a escutar ativamente sua população, especialmente as crianças e os jovens das periferias. Uma das primeiras experiências aconteceu ainda no final dos anos de 1980, quando lideranças comunitárias, sociólogos e urbanistas começaram a entrar nos bairros mais perigosos da cidade. Segundo Santiago, a maneira de conseguir acesso a esses territórios foi entrar “de mãos dadas com as crianças”, promovendo ações voltadas aos direitos dos pequenos.

Foi desse processo de escuta que Medellín aprendeu que uma cidade não são suas ruas, seus prédios ou seus mapas: a cidade são as pessoas que vivem nela. E, ao ouvir as comunidades, a cidade também aprendeu o que significa “ser um urbanauta”, destacou Santiago. Ou seja, percorrer o território ao lado das pessoas, interagindo, trocando ideias, sonhando e construindo juntos.

A partir dessas primeiras experiências, Medellín estabeleceu cinco princípios que guiaram sua transformação:

  1. Cocriar uma visão coletiva de futuro
  2. Desenhar soluções imperfeitas, mas reais
  3. Começar pequeno
  4. Escalar
  5. Manter uma narrativa que una todos em torno de um propósito comum.

Começar pequeno, aceitar a imperfeição e escalar

Para Santiago, uma das lições da transformação de Medellín é que gestores públicos não devem esperar pela política pública perfeita para agir. Em sua palestra, ele foi direto:

Não há uma solução perfeita para os problemas de uma cidade. Precisamos desenhar soluções imperfeitas. As soluções perfeitas só existem no papel.

Mais importante do que acertar de primeira é começar, testar, aprender e ajustar continuamente. Para os gestores públicos, isso significa adotar uma postura mais pragmática e resiliente, na qual a imperfeição inicial é vista como parte do caminho, não como fracasso.

Santiago durante sua palestra no Encontro Nacional Urban95 2026, em Teresina (PI). Crédito: Regis Falcão e Thiago Botelho.

Ele também falou sobre a importância de começar pequeno para depois escalar: “A transformação de Medellín começou em um único bairro, onde desenvolvemos inúmeros projetos urbanos. Depois, eles se espalharam”, disse. Essa estratégia permitiu que a cidade colombiana testasse soluções em escala reduzida, envolvesse a comunidade local e gerasse evidências concretas antes de expandir as iniciativas. Segundo Santiago, começar por um território, um equipamento público ou uma comunidade específica pode ser o gatilho para uma mudança duradoura e de maior escala.

Programa Bom Começo

Uma das políticas públicas que surgiu em Medellín a partir da escuta das pessoas foi o programa Bom Começo (Buen Comienzo), focado na primeira infância. Criado há mais de 20 anos, o programa oferece atenção integral e intersetorial a crianças de 0 a 6 anos e suas famílias, abrangendo tanto necessidades essenciais (saúde, moradia, assistência social) quanto aspectos de desenvolvimento e aprendizagem (educação, esporte, lazer, entre outros).

Na prática, mais de 100 agentes – incluindo as diversas secretarias da cidade, além de universidades, instituições da sociedade civil e parceiros locais – trabalham juntos e de maneira coordenada para melhorar a qualidade de vida dos pequenos, seus familiares e comunidades.

Além do atendimento direto, o programa investe intensamente em mobilização social, buscando a corresponsabilidade da sociedade no cuidado com a primeira infância. A ideia é que a política pública não seja imposta de cima para baixo, mas construída com a participação ativa de quem vive nos territórios. Segundo Santiago, o Bom Começo mostra que políticas que escutam o território, capacitam lideranças locais e integram diferentes secretarias tendem a ser mais duradouras.

Sonhar alto

Santiago compartilhou com os gestores da Rede as lições da experiência colombiana. Crédito: Regis Falcão e Thiago Botelho.

A transformação de Medellín não aconteceu da noite para o dia, mas começou com um passo pequeno, em um único bairro, com a coragem de agir. Hoje, a cidade é reconhecida mundialmente como referência em inovação urbana, e sua transformação deixa uma mensagem poderosa para gestores públicos: o que moveu a mudança foram as pessoas e a persistência.

Santiago encerrou com uma mensagem direta aos gestores presentes:

Sonhem grande. Acreditem no que vocês estão fazendo. A transformação de Medellín começou em um único bairro e hoje a cidade é reconhecida mundialmente. Não foi a tecnologia que mudou Medellín. Foram as pessoas.