Natureza como sala de aula: escolas de Educação Infantil da Rede transformaram seus pátios e rotinas
Trilha da Urban95 uniu formação de educadores e reforma de ambientes externos para transformar pátios escolares em locais de descoberta e aprendizagemOrganizar atividades com intencionalidade pedagógica para crianças da Educação Infantil em ambientes fora da sala de aula, onde os pequenos podem aprender explorando a natureza e o mundo ao redor, é um desafio comum de muitas escolas brasileiras. Mas, em 17 unidades escolares de 15 cidades da Rede Urban95, essa prática já virou rotina.
O feito é resultado de uma trilha formativa da Urban95, que aconteceu entre outubro e novembro de 2025 e que uniu, de um lado, a capacitação pedagógica para uso de ambientes externos e, de outro, a transformação física de pátios escolares.
Uma parte da trilha, focada em desemparedamento da Educação Infantil, foi promovida pelo CECIP e por Vastí Marques, da Lídere – Gestão Inovadora em Educação. Voltada às equipes gestoras e docentes das 17 escolas, ofereceu ferramentas práticas para que elas planejassem e implementassem rotinas semanais com atividades ao ar livre para as crianças, integrando o currículo.
Já a segunda parte da formação, realizada pelo CECIP e pelo Coletivo Taboa, teve como foco a transformação dos pátios em ambientes naturalizados. Direcionada às equipes técnicas das cidades, unindo áreas como Obras, Engenharia, Meio Ambiente e Serviços Urbanos, contou também com a participação das educadoras das escolas. A formação apresentou propostas de projetos, orientações para a construção de brinquedos a partir de podas de árvores, possibilidades pedagógicas para os novos espaços e exemplos de como escalar a naturalização de pátios nas redes municipais.
Participaram as cidades de Capivari (SP), Caucaia (CE), Diadema (SP), Guaíba (RS), Guarapuava (PR), Itaiçaba (CE), Itaquaquecetuba (SP), Jarinu (SP), Maringá (PR), Osório (RS), Parobé (RS), Patos (PB), Recife (PE), São Sebastião do Caí (RS) e Teresina (PI).
Pátios e rotinas transformadas
A trilha trouxe mudanças efetivas no cotidiano das escolas. Ao todo, sete pátios foram completamente naturalizados, e os demais estão em fase final de execução. Cada um dos 17 projetos, concluídos ou em andamento, carrega consigo um percurso formativo que envolveu planejamento coletivo e reflexão sobre como esses espaços podem integrar o currículo.
Além disso, as 15 cidades estruturaram grupos de trabalho com profissionais de diversas áreas, garantindo que a iniciativa avance de forma coordenada e sustentável nas redes municipais.
Outro resultado foi a incorporação do desemparedamento à rotina pedagógica. Diretoras, coordenadoras e professoras elaboraram planos de ação para incluir atividades regulares ao ar livre no dia a dia das unidades.
O caso de Jarinu
Descobrimos que a natureza é o ponto de partida do aprendizado, do conhecimento e de tudo que a criança vai se apoderar daqui pra frente.
É o que afirma Ana Paula Nucci, coordenadora municipal de Educação Infantil de Jarinu (SP), ao contar sobre a transformação que viu nas duas escolas da cidades que participaram da formação.
A primeira, a EMEI Jacintho Lucio do Prado, no centro da cidade, já dispunha de um pátio generoso e de uma imponente árvore centenária. Impulsionada pelo olhar aguçado que a formação despertou, a equipe foi além: construiu um deck sob a copa da árvore e, com os devidos cuidados de segurança, introduziu o fogo como elemento em algumas atividades, o que encantou os pequenos e ampliou as possibilidades de exploração.
Já na segunda unidade, o Núcleo de Educação Infantil (NEI) Professora Rosmari Isabel de Amorim Gonçalves, situada no bairro Nova Trieste, o desafio foi outro. O pátio era amplo, “mas muito pobre, não tinha nada”, recorda Ana Paula. Hoje, o espaço conta com tanque de areia, horta, circuito de obstáculos e um morro transformado em escorregador. A coordenadora destaca:
Tudo foi concebido a partir das ideias das próprias crianças que, mesmo tão pequenas, são do Infantil I, contribuíram muito.
O novo paradigma de uma educação fora da sala de aula despertado pela formação já começou a se espalhar pela cidade. Ana Paula relata que apresentou as experiências a outras gestoras da rede, que passaram a explorar de forma diferente os pátios de suas próprias escolas.
O caso de Itaquaquecetuba
Em Itaquaquecetuba (SP), a equipe da EMEB Creche Paulo Alexandre Mosca Cintra já alimentava um desejo antigo de desplastificar o parque, substituindo alguns brinquedos. A oportunidade veio, então, para aprofundar e dar direção a essa inquietação.
Vanessa Pessoa, técnica de primeira infância do município, ressalta que a trilha teve o cuidado de olhar para a realidade concreta da creche e para os desafios diários da equipe, reconhecendo o percurso já construído pela escola e ajudando a potencializá-lo, sem impor um modelo engessado a ser seguido. Vanessa destaca:
A formação contribuiu para potencializar nossas escolhas, reconhecer as ações já desenvolvidas e ampliar nosso olhar sobre as possibilidades de continuidade e transformação das nossas práticas.
Ela conta que, após a participação da escola na trilha, a rotina da unidade ganhou muito mais intencionalidade no uso dos espaços externos, e que o desemparedamento se tornou um tema que vem ganhando cada vez mais destaque nas discussões entre a equipe gestora da unidade e as professoras. Hoje, o novo pátio da EMEB Creche Paulo Alexandre Mosca Cintra é uma referência na cidade.
Ele tem despertado interesse e curiosidade em outros profissionais da rede que desejam repensar seus parques e pátios.
Os resultados da trilha nas 15 cidades da Rede revelam, na prática, que transformar o ambiente escolar é também transformar o que se aprende e como se aprende. Os pátios naturalizados em unidades de Educação Infantil devolvem aos bebês e crianças pequenas o direito ao movimento, à exploração sensorial e ao vínculo com a natureza.