Emergência climática e primeira infância: qual é a relação?

Nosso mundo enfrenta uma das maiores crises socioambientais já registradas – em grande medida em função das mudanças climáticas que já estão em curso no planeta. Resultado da atuação humana, suas consequências já podem ser sentidas em todos os cantos do planeta, mas sabemos que algumas pessoas são mais vulneráveis a suas consequências do que outras.

Quando ameaçadas diretamente por eventos climáticos extremos – como enchentes, secas, queimadas, poluição, tempestades ou furacões –, crianças de todo o mundo são as que mais facilmente morrem ou possuem suas condições de vida pioradas. Isso causa insegurança alimentar e de acesso à água potável, gerando efeitos como a desnutrição e diarreia, deslocamentos forçados e proliferação de doenças crônicas, o que impacta diretamente a garantia dos seus direitos à vida, à saúde, à educação e ao próprio desenvolvimento.

Não são somente as futuras gerações de crianças que estão ameaçadas, mas as 160 milhões de crianças que vivem hoje em áreas de secas, as 500 milhões vivendo em zonas de enchentes recorrentes, as 115 milhões em áreas de ciclones ou as mais de 90% das crianças que respiram ar tóxico todos os dias estão em perigo hoje. É urgente dar condições saudáveis de desenvolvimento para toda essa geração.

São as crianças pequenas as mais gravemente afetadas pela emergência climática

Famílias com crianças na primeira infância têm direitos garantidos por lei 

Por estarem em um período único do desenvolvimento humano, as crianças com até 6 anos de idade são mais vulneráveis socioeconomicamente e ainda não têm biologicamente os sistemas nervoso-cerebral e imunológico desenvolvidos por completo, estando mais sujeitas às doenças e violências advindas desses eventos. 

As crianças são as mais afetadas pela poluição ambiental, tanto por andarem pelas ruas respirando na altura de onde os carros emitem seus gases como por razões físicas. Os pulmões das crianças pequenas têm uma maior capacidade de absorção por grama de massa corporal, recebendo de duas a três vezes mais poluição do que um adulto. 

Dados da OMS estimam que 88% das doenças advindas das mudanças climáticas ocorrem em crianças de até 5 anos de idade. Após eventos climáticos extremos, as crianças são vitimizadas mais facilmente pelo trabalho infantil e exploração sexual. Além disso, são elas – muitas vezes já na barriga da mãe – que sofrem os maiores e mais permanentes danos da poluição atmosférica, que danificam seu desenvolvimento neurológico e cardiovascular, causando doenças crônicas para a vida inteira.

Desigualdade social e emergência climática

Famílias vulneráveis com crianças pequenas demandam atenção dos gestores e planejadores urbanos 

E como em outros temas, as desigualdades se acumulam e andam juntas. São as crianças negras, quilombolas, ribeirinhas e indígenas também as mais vulnerabilizadas desproporcionalmente pelas alterações climáticas, especialmente pela lógica de exclusão estrutural que permeia as escolhas de políticas públicas ou empresariais, um fenômeno também conhecido como racismo ambiental.

Não há como cuidar de todas as crianças se não enfrentarmos os desafios climáticos e socioambientais. Conceber ações efetivas no controle das emissões de CO2 e proteção das comunidades mais vulneráveis, em especial das crianças e suas famílias, ao longo de toda a cadeia de um negócio empresarial ou ação estatal é um imperativo para que as crianças na primeira infância sejam menos afetadas pela emergência climática e possam acessar políticas de cuidado e segurança social.